Por a 17 Maio 2026

Reabilitação integral e projeto de interiores de um apartamento com 56 m² num edifício do século XIX, no centro de Madrid, onde a penumbra é elemento central na construção do espaço, da atmosfera e da vivência doméstica. O projeto é do Teleno Studio.

Projeto: Teleno Studio | Fotografia: Germán Sáiz

O estado inicial do apartamento, marcado por uma distribuição fragmentada e por uma estrutura de madeira em avançado estado de degradação, conduziu a uma intervenção profunda. A reabilitação implicou a reconstrução parcial do forjado e a consolidação dos muros de carga, redefinindo por completo a lógica espacial da habitação.

Com apenas 56 m², o espaço foi cuidadosamente otimizado. A planta, quase retangular, abre-se para a rua através de dois balcões, enquanto uma pequena janela estabelece ligação com o pátio interior. A antiga compartimentação dá lugar a um único gesto arquitetónico claro: um cubo de madeira que integra o quarto e a casa de banho. Este volume organiza toda a casa, definindo a circulação e os usos em seu redor — cozinha, sala de jantar, zona de estar e arrumação.

O projeto assume um caráter lúdico, descontraído e social. Foi pensado para acolher encontros informais, onde cozinhar e conviver se tornam simultâneos. A cozinha integra-se no espaço comum, permitindo que os convidados participem no ambiente enquanto a refeição é preparada. Atrás do sofá, um móvel em pedra oculta louça e talheres, funcionando também como bar de apoio para cocktails ou refeições partilhadas.

A cozinha, localizada no fundo da sala, apresenta-se como um volume contínuo de madeira escura, do chão ao teto, interrompido por um amplo vão central em mármore emperador.

A luz intensa das ruas de Madrid entra filtrada através de cortinas de linho nos balcões, que se desenrolam como um papiro. Cortinas laterais em algodão espesso, de tom verde-oliva, reforçam essa filtragem, aprofundando a atmosfera de penumbra. Os materiais, com superfícies acetinadas, parecem absorver e refletir essa luz difusa. Espelhos de grande dimensão, dispostos perpendicularmente à entrada de luz, ampliam o espaço e intensificam o jogo de sombras.

É precisamente nessa meia-luz intencional que os objetos ganham protagonismo: superfícies lacadas, cerâmicas vidradas e móveis escuros revelam-se mais expressivos sob o efeito do claro-escuro.

No interior do cubo de carvalho encontram-se o quarto e a casa de banho. Uma grande porta de correr, no mesmo material, separa a zona social da área mais íntima. O azul da mesa de jantar reaparece nos têxteis do quarto — colcha, almofadas e cabeceira — criando continuidade visual. Ao atravessar este limite, a luminosidade diminui, deixando entrar apenas uma luz indireta que incide sobre a cama.

As mesas de cabeceira prolongam o desenho do rodapé e são constituídas por blocos de pedra calcária perfurada, desenhados pelo Teleno Studio.

A casa de banho em suite é o espaço mais reservado da habitação. O lavatório, em mármore travertino vermelho, encontra-se integrado no espelho frontal, marcando a profundidade do espaço. Todos os objetos de uso diário são ocultados atrás de uma porta espelhada sobre a sanita. O brilho do aço das torneiras destaca-se na penumbra, enquanto o microcimento metalizado ganha riqueza com o vapor do duche.

As peças de decoração — como o candeeiro de pé de forma piramidal na sala — reforçam a atmosfera pretendida. As suas formas suaves, de geometria clara, e os tons escuros contribuem para um ambiente sereno, onde o jogo de luz e sombra se torna elemento essencial da experiência espacial.