Por a 11 Maio 2026

O arquiteto Chih-Da Jason Lin reinventou a casa dos seus pais como um “museu habitado”. Ao unir dois apartamentos adjacentes num layout fluido e aberto, o projecto desafia as fronteiras convencionais do espaço doméstico, criando um ambiente onde artefactos de qualidade museológica, peças de leilão e heranças de família se integram de forma harmoniosa no quotidiano.

Projeto: Chih-Da Jason Lin, fundador do Superorganism Architects | Fotografia: Boris Shiu | Texto: segundo memória descritiva

O arquitecto Chi-Da Lin, nascido em Taiwan e radicado em Xangai, revelou recentemente o design de interiores da casa dos seus pais, situada na Rua Qingtian, no distrito de Da’an, em Taipei. O projecto ocupa uma área de 350 metros quadrados e resulta da união de dois apartamentos contíguos numa única residência com três quartos.

Guiado pelos conceitos de “circulação fluida” e “filosofia da não interferência”, o design cria uma habitação simultaneamente tranquila e vibrante — um refúgio urbano onde o quotidiano poético e a serenidade interior coexistem, exemplificando uma síntese refinada entre estética oriental e design contemporâneo.

Enraizada no legado centenário deste bairro enquanto enclave literário, esta casa repleta de arte reinterpreta, sob uma perspectiva contemporânea, a relação entre habitar, coleccionar e herança cultural.

“Enquanto muitos procuram uma ornamentação elaborada pelo seu impacto visual, eu concentro-me na lógica subjacente do espaço e na natureza autêntica do habitar, permitindo, no final, que o espaço regresse a um estado de calma e ordem”, explica Chi-Da Lin.

Estratégia Espacial

A principal inovação do projecto reside na sua radical reconfiguração espacial. Ao remover as divisórias existentes, o design liberta-se das limitações das divisões convencionais, criando um ambiente aberto e contínuo — onde as obras de arte e o mobiliário parecem manter um diálogo constante com a arquitetura do espaço.

A circulação, cuidadosamente orquestrada, funciona como uma estrutura invisível, permitindo que a luz e as linhas de visão fluam harmoniosamente por toda a casa. A área comum (sala de estar) encontra-se interligada para incentivar a interação e as experiências partilhadas, enquanto as zonas privadas são discretamente definidas através de zonas de entrada e sistemas de portas ocultos, formando aquilo que o designer descreve como “fronteiras mágicas”. Estes quartos distribuem-se ao longo do perímetro como planetas em órbita — assegurando independência sem perder subtis ligações entre si.

A disposição espacial — centralizando as atividades comuns e posicionando os espaços privados nas extremidades — permite que cada membro da família desfrute do seu próprio refúgio silencioso. O resultado é um equilíbrio entre solidão e convivência, encarnando o princípio da “coexistência sem perturbação”.

Respondendo ao estilo de vida centrado no chá dos pais de Chi-Da Lin, esta casa integra dois espaços distintos dedicados a esta prática: um minimalista e sereno, concebido para rituais tradicionais de chá no chão; outro organizado em torno de uma clássica mesa de chá em madeira escura e de uma parede inteiramente dedicada ao serviço de chá, permitindo tanto momentos solitários como encontros familiares.

Além disso, a separação entre cozinha chinesa e cozinha ocidental garante que diferentes práticas culinárias coexistam sem interferência, acompanhando os ritmos da vida quotidiana.

Materialidade e Atmosfera

O design de interiores assenta nos conceitos de paz e quietude. Evitando materiais exuberantes e cores intensas, adopta uma paleta de tons bege suaves que estabelece uma base visual calma e acolhedora. Os acabamentos texturados das paredes e os revestimentos suaves amplificam a difusão da luz, enquanto superfícies em tons castanho-acinzentados e carvalho natural introduzem calor táctil. Detalhes em mármore Carrara e azulejos escuros criam um diálogo subtil entre materiais.

As amplas janelas, combinadas com persianas ajustáveis, animam o interior com variações de luz e sombra ao longo do dia, gerando mudanças emocionais subtis no espaço. Embora evoque a sensibilidade contida da estética wabi-sabi, o design evita a monotonia através da sobreposição de texturas e tonalidades, mantendo simultaneamente simplicidade e riqueza.

“Quando se convive em casa com uma cadeira oficial da Dinastia Ming, a sua materialidade e sentido histórico têm muito mais valor do que qualquer objecto de luxo. Estas peças devem fazer parte da própria arquitectura, e não ser meros objectos expostos”, comenta o pai de Chi-Da Lin.

O mobiliário e os têxteis prolongam esta filosofia, combinando tons neutros, madeiras escuras e metais mate. Peças contemporâneas de marcas como HENGE, Cassina e Boffi integram-se naturalmente na colecção artística da família.

Esculturas em pedra da Dinastia Han, figuras budistas da Dinastia Wei Ocidental, pinturas de Sanyu e cadeiras oficiais em madeira Huanghuali da Dinastia Ming não são apresentadas como artefactos distantes, mas vividas diariamente. Em conjunto, formam um “museu habitado”, onde objectos de diferentes épocas mantêm um diálogo contínuo.

Integração Cultural

Em vez de recorrer a simbolismos superficiais, esta casa incorpora memória cultural e identidade local nos seus detalhes. As portas de correr da sala de chá da mãe integram treliças artesanais típicas de Taiwan, evocando a sua infância em Yilan e transformando a memória pessoal em jogos tácteis de luz e sombra.

Os padrões decorativos tradicionais das janelas taiwanesas têm origem nos sistemas ornamentais da arquitetura do sul de Fujian. Após um longo processo de adaptação local, passaram a integrar imagens da natureza, símbolos auspiciosos e estéticas artesanais, formando uma linguagem visual distintiva da região.

Estes elementos entrelaçam a história pessoal da família, permitindo que os materiais se tornem veículos de memória e emoção. Peças vintage italianas coleccionadas ao longo dos anos e mobiliário antigo de estilo Minnan, proveniente de Taiwan, reforçam uma continuidade silenciosa entre passado e presente.

As esculturas budistas e os elementos inspirados no Zen, distribuídos por toda a casa, transcendem significados religiosos específicos, refletindo antes uma procura comum de paz interior — transformando a residência num ambiente espiritual e contemplativo.

Significado Social

Enquanto modelo contemporâneo de habitação urbana, a casa dos pais de Chi-Da Lin transcende a ideia convencional de residência. Dissolve a fronteira entre arte de elevado valor e vida quotidiana, permitindo que obras dignas de museu alimentem a experiência diária e o bem-estar emocional.

O design privilegia os hábitos e sensibilidades dos seus habitantes — particularmente dos seus pais — oferecendo uma interpretação subtil de conforto e adequação no espaço doméstico chinês.

Ao prolongar o legado cultural da Rua Qingtian para o interior da habitação, o projecto cria um diálogo contínuo entre arquitetura e contexto urbano. Desta forma, oferece um raro refúgio no coração da cidade agitada — um lugar de “verdadeiro recolhimento dentro do mundo”.

Aqui, a estrutura racional da arquitectura estabelece a ordem espacial, enquanto o mobiliário e a arte introduzem calor e significado. Herança familiar, colecção artística e filosofia contemporânea de habitar entrelaçam-se, transformando o quotidiano numa experiência estética imersiva e multifacetada.