Neste apartamento suspenso sobre os Jardins, em São Paulo, a arquitetura não se limita a organizar espaço, constrói identidade.
Projeto: Gustavo Neves | Fotografia: Marco Antônio | Texto: enviado pelo arquiteto
Pensado para uma família em crescimento, o projeto nasce de uma convicção íntima: “Acredito que o espaço onde vivemos desempenha um papel fundamental na formação de quem o habita”, refere a sua proprietária, advogada. Os 250 m² foram desenhados como território vivo, aberto à transformação, onde áreas livres podem ser ajustadas ao ritmo das crianças, das brincadeiras e das futuras mudanças da vida.


A casa organiza-se entre dois jardins e uma planta fluida, preparada para acolher novos capítulos: a chegada de outro filho, a adoção de um animal de estimação, sem perder coerência. Mais do que responder a um programa funcional, o projeto procura inscrever no quotidiano marcas de memória, cultura e ancestralidade. “Numa casa com crianças, a arquitetura de interiores deve conter a história da família, honrar a cultura local e incorporar elementos das suas origens”, explica o arquiteto Gustavo Neves. Cada escolha procura, portanto, transformar-se em ícone das histórias que ali se desenrolam.
Logo à chegada, o hall do elevador funciona como manifesto conceptual. Um túnel de compressão com cinco metros de extensão, em betão aparente bruto, presta homenagem à história da metrópole paulistana e ao modernismo local. Na prática, atua como cápsula de transição: isola o ruído e a energia da cidade para preparar a entrada no universo doméstico. “É um espaço para deixarmos o exterior do lado de fora e entrarmos em casa com boas vibrações.”



As paredes revelam camadas de tinta acumuladas desde a construção do edifício, nos anos 70, expostas através de um desenho orgânico contínuo. A intervenção transforma o corredor numa instalação arquitetónica e artística, onde passado e presente coexistem. “Cada morador pode procurar um detalhe e ter a sua própria experiência, quase como entrar num portal da sua história.” A materialidade segue essa mesma ética: nada é artificializado, tudo é tratado na sua condição natural.
Os elementos selecionados — obras de arte, objetos, texturas — funcionam como narrativa coletiva. Entre eles, destaca-se uma escultura de Ifé, do século XVIII, adquirida em leilão, evocando heranças africanas e diásporas culturais. A cidade também se infiltra no projeto: desgaste, diversidade, calor humano, caos urbano. As paredes onduladas traduzem, em linguagem espacial, a “selva de pedra” paulistana.

O mobiliário prolonga essa autobiografia material. Peças vintage, mantidas no seu estado original, convivem com desenhos contemporâneos num cruzamento de épocas e geografias — da Brigadier de Cini Boeri, de 1970, às cadeiras de Ricardo Fasanello ou às poltronas francesas dos anos 30. “Num mundo de procedimentos estéticos, devemos orgulhar-nos da beleza das nossas marcas naturais”, afirma a arquiteta, recusando restauros excessivos que apaguem o tempo.
A casa, pensada como templo quotidiano, acolhe apenas o essencial. “Questiono sempre os pedidos: para quê um closet cheio de portas se não há roupa para isso? A casa deve conter só o necessário para vivermos plenamente.” Ainda assim, o projeto manteve total sintonia com os moradores, sofrendo apenas ajustes impostos pela estrutura existente, caso do pilar de pedra incorporado na ilha da cozinha, solução encontrada após a demolição de uma parede revelar uma coluna oculta.


Inserido num edifício modernista de doze andares, o apartamento dialoga com a arquitetura original, que a autora descreve como belíssima. A planta versátil é um dos seus orgulhos, a par das intervenções artísticas em tetos e paredes, resultado de dias passados em obra, desmontando e recompondo elementos ao lado da equipa. O trabalho da construtora foi decisivo para restaurar peças originais e executar ampliações com precisão.
O resultado é um espaço que envolve quem entra. “Quero que o visitante se sinta abraçado, orientado a tomar decisões que beneficiem a natureza, as pessoas e a vida.” Essa dimensão ética ultrapassa a estética e prolonga-se no modo de viver da própria família.


Quando o projeto começou, havia três carros na garagem. Hoje resta apenas um, para viagens. A mudança não foi imposta, foi assimilada. A advogada passou a usar transportes públicos; o marido, CEO de uma empresa tecnológica, desloca-se de bicicleta pela cidade. “Esse espírito de empatia e coletividade é o que espero que as pessoas levem consigo depois de visitar esta casa.”
Mais do que cenário doméstico, este apartamento é o retrato tridimensional de uma forma de estar: um lugar onde arquitetura, memória e consciência se entrelaçam para contar, sem artifícios, a história singular de uma família paulistana.

