Por a 15 Fevereiro 2024

Adquirida em abril de 2019, esta casa térrea dos anos 50, deve o seu projeto de interiores à visão e paixão da sua proprietária pelo design e foi o empurrão para Joana Muñoz fazer a mudança do seu percurso de vida.  

Fotografia: Teresa Aires / Texto: Isabel Figueiredo

O pequeno refúgio insere-se numa zona residencial num bairro típico de Cascais, escondido por muros revestidos com sulipas e barrotes de madeira, antes utilizados nos caminhos-de-ferro, revelando um jardim de 400 m2 com piscina, já existente.

“Foi amor à primeira vista”, confidencia Joana. “Tinha encontrado o meu pequeno oásis no meio de Cascais. O projeto de arquitetura é da autoria de uma amiga minha, que, entretanto, deixou a arquitetura e seguiu o caminho das belas-artes, e foi feito em parceria. Reunimos várias vezes, passei-lhe exatamente o que pretendia e, depois das obras feitas, parti para o projeto de design de interiores, que é da minha responsabilidade, tendo sido o empurrão para a minha mudança de percurso de vida”, conta-nos. “Foi o primeiro projeto que fiz de A a Z e, talvez por isso, bastante desafiante, porque a transição de uma casa de três andares para uma casa térrea, em que todos os espaços tinham de ser muito bem pensados e aproveitados, levou-me a um estudo exaustivo da área e de questões como funcionalidade e luz”.  

Neste processo, todos os vãos de janelas foram aumentados, bem como demolidas algumas paredes, o que alterou por completo o interior da casa, que era, antes, excessivamente compartimentada, com várias divisões e apoiada por um anexo adjacente . “Os dois pequenos quartos com sala de costura, ao centro, foram transformados em duas suítes com a arrumação necessária para cada um dos meus filhos; o anexo foi transformado na nossa suíte e hoje tem um armário com 12 metros de comprimento, um pequeno escritório e ainda uma sala com casa-de-banho de apoio à piscina, além de servir como espaço de convívio para os amigos dos meus filhos — com a vantagem de ter uma entrada exterior, pelo jardim”, acrescenta. A cozinha, generosa, foi transformada “num laboratório gastronómico com o espaço ajustado a uma família de quatro pessoas”. 

A casa principal exibe uma cor cinzento-clara em harmonia com a parede de pedra já existente e faz um bom contraste com a porta azul-turquesa, num convite a entrar. No seu interior, há espaço para as salas de estar e de jantar, em open-plan, onde uma porta de correr esconde o laboratório gastronómico e outra esconde a zona de despensa e arrumos bem como o acesso à lavandaria e a uma das garagens.

As duas suítes dos filhos foram destinadas para o lado direito da casa e usufruem da boa luminosidade natural, graças aos grandes janelões com vista para a piscina. Na parte posterior da casa localiza-se a suíte do casal, a principal, destinada para o antigo anexo. “A ligação entre a casa principal e o anexo foi feita através da casa-de-banho social preexistente, entretanto transformada num corredor que dá acesso ao pequeno escritório, seguida da entrada para a master suíte. No exterior, paredes meias com a suíte, há uma sala de jogos/cinema/música com uma casa-de-banho, um espaço que utilizamos amiúde para ver um filme em família ou para os miúdos receberem os amigos e jogarem uma partida na máquina de flippers, uma das minhas peças favoritas”.  

O jardim, amplo e espaçoso, com uma piscina em forma de feijão, típica nos anos 70, está equipado com uma zona de refeições, localizada em frente a uma das janelas da sala, que abre na totalidade permitindo uma boa ventilação nos dias de calor, além de passar a ideia de uma sala ainda maior, diluída com o verde. A piscina é envolvida por uma zona de espreguiçadeiras e, no outro extremo, há um limoeiro com um banco de jardim, que repousa à sua sombra. Tão pouco este jardim sempre foi como é hoje: “A piscina era ladeada por pavimento em pedra, que foi substituído por deque”, diz-nos. “Na zona das espreguiçadeiras, o pavimento era em gravilha, com canteiros, entretanto substituído por uma plataforma em betonilha, muito mais confortável para os pés.” A vegetação envolvente é uma combinação harmoniosa entre árvores de fruto, entre eles o limoeiro, o diospireiro, a ameixeira e a laranjeira, já existentes, e as suculentas, os catos e os malmequeres. “No muro velho, fiz uma instalação com as andorinhas da Bordallo, que representam os anos de casada, no telhado de uma das garagens coloquei um gato eriçado e nos canteiros, misturados com os malmequeres, há um caracol, um grilo e um cato, tudo em cerâmica e tudo colorido”.  

Todos os recantos foram pensados para serem vividos: “Uma das lutas que tive foram as garagens”, explica. “Tínhamos uma garagem onde colocávamos três carros, algumas motas, bancadas de ferramentas e de brinquedos próprios de um engenheiro mecânico apaixonado por carros e motas clássicas. Nesta casa, o telheiro preexistente foi transformado em garagem fechada, e agora, as duas garagens que temos, além de cumprirem a sua função inicial, são também dois espaços muito agradáveis de se estar. As suas paredes revestidas a chapa ondulada de alumínio estão decoradas com posters antigos e peças de automóvel, em sintonia com os carros que alberga. Até um canto, equipado com um sofá orelhudo e um candeeiro, sugere umas merecidas pausas para ler um livro”.  

Joana e a família são felizes neste refúgio. Tudo na casa reflete a sua forma de estar e vivências. “Na minha opinião, as casas devem ser o espelho de quem as habita, têm de contar uma história, a da família. A casa tem de ser confortável e funcional para quem lá mora. Nos meus projetos gosto sempre de conhecer toda a família, gosto de saber os hobbies, os gostos, um bocadinho da história de cada um para poder criar espaços à medida de quem os usa. Uma das perguntas que faço sempre é se existe uma peça ou peças que queiram manter e porquê! Muitas vezes, é a secretária antiga do pai que traz boas recordações ou o canapé do quarto da avó”. E foi isso que Joana fez na sua própria casa. Aqui, tudo conta uma história, uma forma de estar.

“Uma das minhas paixões é trabalhar com peças antigas, com uma narrativa própria. Gosto de misturar estilos, de forma a criar uma sintonia entre eles. Nesta casa, muitas das peças são de família, articuladas com outras, feitas à medida, conjugadas em harmonia; nas paredes exibem-se uma mistura de quadros de autor com outros herdados. E porque está sempre presente o gosto pela música, pela arte e pelas viagens, essas formas de manifestações culturais estão aqui igualmente representadas”. 

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