Vista da rua, a casa pouco revela. Construída entre o final dos anos 70 e o início dos 80, apresenta a linguagem arquitetónica típica da época — linhas firmes, quase austeras, pouco dadas ao charme exterior. Mas basta atravessar a porta para perceber que o interior conta uma história completamente diferente.
Fotografias: António Moutinho | Produção: Amparo Santa-Clara | Texto: Isabel Figueiredo
Foi em meados dos anos 90 que Karla Lamounier encontrou esta casa em Cascais. Comprou-a em 1995 e mudou-se no ano seguinte. Trinta anos depois, continua a ser o cenário da sua vida, um espaço profundamente transformado ao longo do tempo e moldado pelo seu olhar estético. A primeira intervenção foi estrutural. “Mudámos praticamente tudo”, recorda.


O chão recebeu a madeira de carvalho, promovendo continuidade e mais ‘calor’ entre os diferentes pisos. No exterior, o pátio foi redesenhado com tijoleira espanhola e novas paredes, dando origem a um ambiente que hoje evoca, discretamente, uma atmosfera mediterrânica.




Com três andares, a casa organiza-se de forma clara: no piso térreo, sala de estar, sala de jantar, cozinha e um pátio que prolonga naturalmente a casa para o exterior. A antiga garagem foi transformada num quarto, enquanto o segundo piso reúne os quartos — recentemente reorganizados para criar três suítes. No topo, ocupa lugar a suíte principal, com uma ampla varanda que se abre para duas paisagens distintas: o mar de Cascais de um lado, a serra de Sintra do outro.





“O curioso é que quem passa na rua não imagina o que existe aqui dentro”, comenta Karla. “A casa abre-se completamente para trás, para o pátio, para os terraços, para o jardim.” O pátio, aliás, tornou-se um dos espaços mais carismáticos da casa. Buganvílias cor-de-rosa e roxas, sardinheiras e trepadeiras criam um ambiente quase toscano, pontuado por vasos e plantas que a própria Karla foi escolhendo e plantando ao longo dos anos. A relação com o exterior faz parte da identidade da casa e reflete também uma das suas paixões: o paisagismo, área que foi explorando de forma intuitiva.




Todo o interior foi decorado por si. A base é eclética, mas coerente: um equilíbrio entre linhas contemporâneas e peças com história. Sofás de desenho atual convivem com cadeiras Luís XV, cómodas antigas e uma grande quantidade de objetos decorativos — vasos, cerâmicas, vidros e louças acumuladas ao longo de viagens e de décadas de vida. “Para mim, são as obras de arte e os objetos que dão alma a uma casa”, diz. “São eles que trazem alegria às paredes.” Esse olhar estético acompanha-a desde cedo. Formada inicialmente em arquitetura e design de interiores, Karla trabalhou durante anos como figurinista, primeiro no Brasil, na TV Globo, e depois em Portugal, colaborando em várias produções televisivas. Mais tarde abriu lojas de roupa no Monte Estoril e em Lisboa, antes de se dedicar à criação de arranjos florais, cenografias e decoração de eventos, atividade que hoje ocupa o centro da sua vida criativa.

“A arquitetura, a moda e as flores são apenas linguagens diferentes do mesmo olhar”, explica. “No fundo, trata-se sempre de combinar formas, cores e texturas.” Essa sensibilidade é visível em cada divisão da casa. Nada parece rígido ou excessivamente calculado; pelo contrário, o espaço foi ganhando camadas ao longo dos anos, com novos objetos, móveis e memórias, integrados naturalmente. Mais do que uma casa decorada, é uma casa vivida, um lugar onde convivem arte, natureza, história pessoal e um apurado sentido de composição. E talvez seja essa a verdadeira surpresa escondida por trás da fachada discreta: um interior onde tudo foi pensado com sensibilidade, mas onde nada perdeu a espontaneidade.

