Por a 19 Maio 2026

Na residência privada Pimenli, situada num histórico bairro chinês, esta ideia transforma-se numa experiência imersiva e tangível. Num espaço composto por um pátio de 700 m² e um interior de 1.000 m², o designer Zhang Haihua criou um ambiente habitacional sofisticado para uma família de três gerações.

Projeto:  Z+H Renhai Design | Fotografias: Cai Yunpu | segundo memória descritiva

Num discreto enclave junto ao histórico bairro de Taohuawu, em Suzhou, a Residência Privada Pingmenli propõe uma reflexão subtil sobre a forma como habitamos o espaço contemporâneo. O projecto, assinado por Zhang Haihua para o escritório Z+H Renhai Design transforma a tradição paisagística de Jiangnan numa experiência doméstica sensorial.

Com um interior de 1.000 m² articulado em torno de um jardim de 700 m², a residência foi concebida para acolher três gerações da mesma família. Contudo, a escala nunca se impõe sobre a intimidade. Pelo contrário, tudo aqui parece pensado para desacelerar o olhar e amplificar a relação com a luz, o silêncio e a matéria.

Ao entrar, a sensação é quase cinematográfica. Cortinas translúcidas filtram a luz natural como se fossem folhas de papel xuan, enquanto sombras delicadas desenham composições efémeras sobre paredes e pavimentos. Em vez de recorrer a símbolos óbvios da cultura tradicional chinesa, Zhang Haihua opta por uma abordagem mais subtil: linhas depuradas, materiais contidos e uma utilização rigorosa da luz como elemento arquitetónico. O resultado é um ambiente sereno e minimalista, mas também contemporâneo.

A casa estabelece um diálogo sofisticado entre a filosofia dos jardins clássicos de Suzhou e a linguagem do design italiano. Durante o dia, as janelas enquadram o exterior como pinturas vivas; à noite, o interior iluminado assume a presença silenciosa de uma galeria de design suspensa no meio de um jardim ancestral. Há uma tensão constante entre o estático e o mutável, entre o vazio e a presença.

Esta dualidade prolonga-se também na escolha do mobiliário e dos materiais. Peças da Molteni&C convivem naturalmente com mobiliário inspirado na dinastia Ming, criando encontros subtis entre Oriente e Ocidente. Na sala de estar rebaixada, um sofá contemporâneo posiciona-se frente a uma consola clássica chinesa, enquanto ao fundo surgem pedras Taihu, bambus e vegetação cuidadosamente enquadrados pela arquitectura. Cada perspectiva parece desenhada como um quadro em permanente transformação.

Mas é talvez no trabalho artesanal que o projecto revela a sua dimensão mais extraordinária. O jardim foi desenvolvido em colaboração com Mestre Yuan, um experiente artesão local que compôs os elementos rochosos seguindo as formas naturais de cada pedra, quase como se a própria paisagem tivesse emergido organicamente do terreno. No interior, a precisão milimétrica da carpintaria italiana contrasta — e simultaneamente harmoniza — com a sensibilidade táctil dos acabamentos chineses. Armários embutidos desaparecem nas paredes, ferragens em bronze polido dialogam com cerâmicas raras da dinastia Song e pequenos gestos quotidianos tornam-se experiências sensoriais: o deslizar de uma gaveta, a textura da seda, o vislumbre inesperado do jardim através de uma abertura esculpida.

A visão de Zhang Haihua para Pingmenli ultrapassa claramente a ideia convencional de luxo residencial. Inspirando-se na tradição pictórica oriental — de Ma Yuan a Bada Shanren — o designer procura traduzir para a arquitectura o conceito de liubai, o vazio intencional que permite à emoção respirar. Os espaços sociais adoptam, por isso, uma linguagem contida, quase silenciosa, onde a circulação, a convivência familiar e a contemplação assumem protagonismo.

Existe também uma forte dimensão humanista no projecto. Como defendia o arquitecto Tadao Ando, a arquitectura residencial é uma expressão directa da cultura, do clima e da forma de viver. Em Pingmenli, essa ideia manifesta-se através de uma arquitectura que não procura impressionar pelo excesso, mas antes criar uma sensação duradoura de pertença e tranquilidade.

Num momento em que tantas casas contemporâneas parecem desenhadas para a imagem instantânea, Pingmenli propõe exactamente o oposto: uma arquitectura feita para ser vivida lentamente. Entre jardins, sombras e superfícies depuradas, esta residência em Suzhou revela como tradição e modernidade podem coexistir.