Por a 21 Maio 2026

No coração da região Grand Cru da Borgonha, o escritório ASL Architecture projetou o interior e selecionou a coleção de arte para o Les Sources de Vougeot. A propriedade com quase mil anos de história foi meticulosamente restaurada e hoje oferece uma imersão completa numa combinação de tradição e modernidade.

Design de interiores: ASL Architecture | Fotografias: Jules Focone | Texto: segundo memória descritiva

Há histórias que nascem de um lugar. Outras, de uma visão. A história das Les Sources nasce de ambas: do sonho de criar um universo inteiramente dedicado à cultura da vinha, à arte de viver francesa e a uma hospitalidade ligada à natureza.

Tudo começou em 1999, quando Alice Tourbier e Jérôme Tourbier inauguraram Les Sources de Caudalie, nas terras do prestigiado Château Smith Haut Lafitte. A propriedade depressa se destacou pela abordagem pioneira à sustentabilidade e por uma visão inovadora do luxo ligado ao enoturismo. Em 2020, esse universo expandiu-se com a abertura de Les Sources de Cheverny, no coração do Vale do Loire.

Hoje, a coleção instala-se na Borgonha, escrevendo um novo capítulo em Les Sources de Vougeot, entre Beaune e Dijon, no coração da Côte de Nuits. O hotel, afirma-se como uma experiência sensorial onde património, arquitetura, interiores e paisagem se fundem numa narrativa enraizada no território.

O espírito da Borgonha reinventado

Implantado no histórico Château de Gilly — antigo priorado cuja origem remonta ao século VI — o projeto recupera um lugar intimamente ligado à história vitivinícola da Borgonha. Habitado durante séculos pelos abades de Cîteaux, figuras fundamentais no desenvolvimento das técnicas de vinificação da região, o edifício atravessou o tempo transformando-se sucessivamente em fortaleza e residência senhorial.

A intervenção arquitetónica procurou preservar a memória do lugar sem o cristalizar no passado. Para isso, Alice e Jérôme Tourbier voltaram a confiar nos arquitetos Chevalier & Guillemot, especialistas na reabilitação de monumentos históricos, já responsáveis pelo projeto de Cheverny. A decoração de interiores ficou a cargo do estúdio A.S.L Architecture, que desenhou ambientes onde a sofisticação contemporânea dialoga com a herança monástica e aristocrática do château.

A chegada ao château é marcada por uma encenação quase cinematográfica. Rodeado por fossos ancestrais e jardins de inspiração clássica francesa, o edifício revela-se gradualmente até ao atravessamento da antiga ponte levadiça. A entrada surpreende pela escala: por detrás de uma pequena porta abre-se um lobby monumental, instalado na antiga cozinha do priorado.

As abóbadas ogivais, as colunas em pedra talhada, as grandes janelas arqueadas e as lareiras monumentais preservam a imponência histórica do espaço, enquanto os interiores introduzem uma linguagem contemporânea depurada e elegante. A paleta de materiais naturais — pedra da Borgonha, madeira, veludos profundos — cria uma atmosfera acolhedora que suaviza a grandiosidade arquitetónica.

Ao lado, o Bar do Château assume uma identidade mais intimista e envolvente, onde os verdes escuros, os tecidos ricos e a iluminação quente compõem um cenário pensado para o ritual da degustação.

Quartos que dialogam com o passado

Distribuídos pelos corredores e escadarias do château, os 49 quartos e suites foram concebidos como extensões naturais da história do edifício. Em vez de recriar uma estética histórica literal, o projeto aposta numa convivência harmoniosa entre passado e presente.

Tetos à francesa, vigas expostas, lareiras antigas e paredes carregadas de memória coexistem com peças de design contemporâneo, superfícies metálicas e linhas depuradas. Os tons creme e neutros reforçam a serenidade dos espaços, permitindo que a arquitetura histórica permaneça protagonista.

Entre todas as tipologias destaca-se a Suite La Vigne Rose, com 105 m², onde o património decorativo original assume uma presença extraordinária. O teto de caixotões ornamentado, os frescos históricos e o parquet em espinha húngara convivem com uma linguagem contemporânea discreta, mas sofisticada. A suíte integra ainda uma biblioteca, um bar privado e uma sala de banho.

Paisagem, arte e bem-estar

A relação entre interior e exterior é um dos grandes gestos do projeto. Em L’Orangerie, espaço dedicado ao pequeno-almoço, uma ampla cobertura envidraçada dissolve as fronteiras com os jardins.

No exterior, os jardins reinterpretam a tradição francesa através de espelhos de água e extensas áreas verdes pontuadas por árvores e arbustos. Uma piscina linear, discretamente integrada no terreno, surge como um prolongamento da paisagem.

Mais adiante, o rio Vouge serpenteia até um antigo moinho convertido numa suite singular suspensa sobre a água — talvez o espaço que melhor traduz a dimensão poética deste projeto.

Gastronomia e bem-estar como extensão da arquitetura

Os antigos edifícios de apoio ao château acolhem hoje o coração gastronómico das Les Sources de Vougeot: os restaurantes L’Auberge des Cîteaux e Le Clos de la Tour, ligados por um wine bar concebido como espaço de transição e encontro.

Já o antigo cellier foi transformado no Spa Caudalie, um santuário de bem-estar onde os tanques interiores se inserem entre colunas de pedra e abóbadas seculares. Aqui, a materialidade histórica torna-se parte integrante da experiência sensorial.