Um projeto contemporâneo que resultou num ambiente masculino, surpreendente e cheio de simbolismos!

Fotografia: Ricardo junqueira  Produção: Amparo Santa-Clara

Texto: Mafalda Galamas

O edifício pertencente, em tempos, ao Palácio da Trindade e que se destinava às cavalariças, embora a versão não seja unânime – há quem defenda que fora um espaço destinado à estufa do Palácio – é, hoje, um edifício adaptado aos tempos modernos. Foi alvo de uma recuperação total, complexa e convertido em habitação. Aquilo que não passava de um velho armazém transformou-se num espaço com três pisos e 10 metros de pé direito, com vista para o Castelo de São Jorge!

A habitação que partilhamos nesta edição, fica no lugar cimeiro. O seu acesso faz-se igualmente pelo um átrio retangular que se vê da fachada, com acesso às escadas centrais, em torno das quais se organizam os diversos pisos com disposição em U. Chegados ao topo, somos recebidos por Ricardo Abelaira, o arquiteto de interiores responsável pela decoração deste apartamento de 200m2, desenvolvido por dois pisos, (três se contarmos com o rooftop).

Começa por nos explicar que a casa se desenrola numa sequência de salas, comunicantes entre si, sem uma única porta, apenas uma das singularidades deste espaço especial e diferenciador.

Abelaira, acrescenta ainda que o ponto de partida para a decoração foi a grande tela ilustrada com um bebé, (de autor desconhecido), que se encontra pendurada entre o hall e a cozinha. O resultado é um espaço, harmoniosamente, masculino, onde os tons escuros e neutros se evidenciam. Os apontamentos de amarelo, evidenciados na tela pintada em madeira, no papel de parede texturado junto às lareiras, ou no cadeirão norueguês dos anos 60, refletem a tonalidade selecionada como complemento.

Ao entrarmos, o que acontece diretamente para a sala, percebemos que tudo se desenrola em torno das escadas erguidas com madeiras recuperadas das antigas vigas, e vidro temperado. Dão acesso a um mezanino que faz as vezes da suite do apartamento. Mas já lá vamos.

É junto a elas que estão, a desejar as boas vindas a quem entra, algumas peças particulares da habitação, como as lanternas originárias da China ou o prato comunitário marroquino.

É na sala que tudo acontece, de um lado zona de estar, do outro, a de jantar.  Parte do mobiliário foi desenhada por Ricardo, e executada à medida, como é o caso da mesinha de centro e das vitrines em madeira e, portas de vidro preto, onde repousa a coleção de esferas trazidas do mundo inteiro. O facto de as estantes serem iluminadas ajuda a dar destaque a algumas figuras balinesas com enorme simbolismo. 

Junto ao sofá comprido, irlandês, que fora apenas estofado com um novo tecido cinzento, vemos a mesinha de tronco, originária de Bali e que contrasta com a ventoinha industrial que foi adquirida num antiquário. O segundo sofá, peça herdada de família, é original dos anos 70 e ajuda a delimitar a área destinada ao (re)canto de “escritório”. É, na verdade, um espaço informal que permite ao proprietário trabalhar quando necessário… Rodeado por algumas peças vintage, inspiradoras, como candeeiros, mobiliário ou o cabide de pé, para citar apenas alguns exemplos.

Também a mesa de jantar, com tampo de vidro preto assente em “pés” de cimento foi personalizada. As cadeiras pertenciam a uma sala de cinema norueguesa, dos anos 60, embora tenham sido adquiridas cá. Já o centro de mesa em cerâmica, que noutra vida adornou os jardins de um Palácio em Colares, foi adquirido num leilão.

O contraste de épocas e estilos foi um exercício de estilo muito próprio de Ricardo Abelaira cujo core business são, sobretudo, restaurantes (tendo desenvolvido cerca de 30 só em Lisboa, e em concreto, na zona do Chiado!).

Da sala de jantar comunicamos com a cozinha, tem balcão em cimento afagado, tal como o resto do pavimento do apartamento. Daqui, acedemos às pequenas varandas traseiras da casa, abertas ao ar livre. Já para acedermos à varanda principal do apartamento, temos de passar pelas grandes janelas de sacada que vemos na sala. Lá fora, podemos apreciar o ex libris da cidade (o Castelo), numa espécie de plus do apartamento.

Novamente cá dentro, e subindo as escadas que dão acesso ao quarto percebemos que algumas das eventuais condicionantes do espaço foram transformadas em pontos fortes da divisão. O facto de não existir uma parede estrutural onde se pudesse encostar a cabeceira de cama, levou a que o arquiteto desenhasse uma cabeceira de cama em vidro que é, na verdade, a parede divisória com o lavatório. Em torno da cama todos os armários foram feitos à medida e no teto, com forte inclinação, foram instaladas imensas janelas. 

É por aqui que acedemos ao rooftop, e é deste terraço de topo que podemos apreciar o telhado de zinco que manteve a sua forma original, cónica (e icónica!).