Por a 11 Novembro 2018

O projeto é da autoria do Studio Gameiro e incidiu sobre umas águas-furtadas de um edifício do ano 1819, tipicamente ‘pombalino’ tardio, inserido num dos bairros históricos do centro de Lisboa.

Projeto: Studio Gameiro / Fotografia: Tiago Casanova

As soluções adoptadas pela equipa deste atelier de arquitetura propõem celebrar o caráter histórico existente e, de forma equilibrada, introduzir elementos contemporâneos. Uma operação holística que valoriza as técnicas e elementos tradicionais portugueses assim como potenciar a luz natural impar e vistas de Lisboa.O apartamento está localizado numas águas-furtadas, no quinto piso de um edifício de fachada de azulejo azul escuro e cantarias de pedra.

O corredor de entrada do apartamento divide a área social, traseira, e a área privada, frontal.A área social inclui uma cozinha aberta para a sala em ‘open-plan’, casa-de-banho e um terraço exterior. As paredes de argamassa e pigmento umbra naturais servem para uniformizar todo o apartamento, e apenas algumas aberturas pontuais revelam apontamentos históricos e vãos para o exterior. Uma solução de grande beleza, e de certa forma depurada, o que a torna ainda mais especial. Tais apontamentos incluem frescos originais de 1819, cruz de Santo André e paredes e tetos de tabique.

No hall de entrada, o teto, trapeira, constante do existente, está tencionalmente e destapado mas agora recuperado. Este detalhe sublinha a intenção dos arquitetos em revelar o melhor e mais bonito da antiga casa, equipando-a agora de mais conforto e outras valências, adequadas aos tempos modernos.

Os pavimentos

O pavimento das áreas privadas é de tábua corrida de madeira de Riga original, numa tonalidade cálida, em contraste com as paredes, o que imprime algum calor à casa. Por seu turno, e em alternativa, o piso da área social é um pavimento novo de mármore e cimento branco.

Este pavimento, designado de ‘Terraço’, foi criado propositadamente para este projeto e colhe inspiração nos pavimentos de desperdício de mármore aplicado nos terraços e garagens das casas dos países do Sul da Europa. Este prolonga-se desde o terraço exterior por toda a área social e ainda à casa-de-banho.


Os pedaços de mármore, solução de grande plasticidade, foram esculpidos manualmente por artesãos, aqquirindo formas de geometria semelhante entre si e aplicados de forma livre mas ordenada. Uma solução que imprime caráter ao apartamento.

As janelas de ferro lacado a preto, na fachada tardoz e sul, de acesso ao terraço exterior, seguem a mesma forma da janela de madeira da trapeira frontal e proporcionam luz natural em abundância, assim como o enquadramento das vistas de rio e de jardim da cidade. Lisboa à vista, a partir de uma casa com história.

A cozinha

Também aqui foram mantidos alguns elementos do passado, numa tentativa de sublinhar a importância da época numa casa renovada para o século XXI. O mobiliário de cozinha é embutido e dá continuidade aos tons de pastel das paredes. De materialidade e pantone semelhante às mesmas, este assume frentes texturadas, e colhe inspiração na textura da cantaria de predra da chaminé, que entretanto foi restaurada.

Em diversos momentos, foram criadas aberturas no teto, expondo a estrutura de madeira original das trapeiras e permitindo assim a entrada de luz natural, e artificial indireta.

A zona íntima

O quarto da frente, sempre que apropriado, retém grande parte dos elementos originais, caso dos frescos originais à volta da janela. Com efeito, até a própria janela foi replicada para uma janela de madeira de vidro duplo.

Por seu turno, o teto ‘saia e camisa’ foi recuperado e o pavimento de tábua corrida existente foi lavado a cal e sobre ele aplicado um óleo natural incolor.

As portadas e portas interiores foram recuperadas e pintadas a tinta de água e do mesmo pigmento natural do que foi usado nas paredes de argamassa de barro.

A cama dupla, intencionalmente desenhada para este quarto, foi pensada de forma a permitir a colocação de um colchão duplo, com acesso à varanda através de uma plataforma pivotante. A estrutura é feita de apenas sete peças e não leva parafusos, facilitando o transporte e rápida montagem.O quarto virado a sul, com duas pequenas janelas, tem um teto de águas e um walk-in closet. Foi aplicada nas paredes a mesma argamassa natural e reversível de forma a preservar os frescos, danificados no passado, de uma forma ordenada e controlada.
As tomadas e interruptores foram colocados horizontalmente sobre uma faixa que existia entre os paineis de frescos, de forma a não serem tocados e, logo, danificados. À semelhança de outras zonas da casa, também o walk-in closet expõe os elementos originais existentes por meio de uma parede de espelhos, alterando também a percepção das dimensões do quarto.

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