O coletivo de arquitetura Arya Douge converteu duas antigas garagens em Notting Hill, numa habitação com dois quartos, organizada em torno de um espaço de estar com duplo pé-direito. Os interiores foram concebidos em colaboração com a designer Rebecca Roberts, que introduziu uma paleta de cores suave e discreta, concebida para contrabalançar o ambiente de cave.
Projeto: Arya Douge + Rebecca Roberts | Fotografias: Domus Nova
Numa discreta rua empedrada de Notting Hill, onde o ritmo da cidade abranda e a memória arquitetónica permanece intacta, nasce uma casa inesperada. A Notting Hill House, assinada pelo atelier londrino Arya Douge, em colaboração com a designer de interiores Rebecca Roberts, ocupa o lugar de duas antigas garagens e reinventa-o como uma habitação contemporânea onde a luz e a verticalidade definem toda a experiência do espaço.


À primeira vista, pouco denuncia a transformação. Integrado na Colville Mews, o edifício fazia parte do antigo sistema de cocheiras que servia as elegantes casas vitorianas da vizinha Colville Terrace. Com o passar dos anos, perdeu identidade e função, tornando-se um volume degradado e descaracterizado. É precisamente aqui que o projeto ganha relevância: não apenas pela conversão, mas pela forma sensível como reinterpreta o passado.



A intervenção devolve dignidade à fachada, recuperando a alvenaria tradicional em tijolo e introduzindo uma nova frente em madeira, desenhada segundo a linguagem típica da zona. As janelas de guilhotina, de perfil delicado, e os detalhes em ferro fundido reforçam essa continuidade histórica, criando um diálogo subtil entre o que existia e o que agora se propõe.


Mas é no interior que a narrativa se transforma. Em vez de maximizar a área disponível — uma abordagem comum em contextos urbanos densos — os arquitetos optaram por retirar, criando. No centro da casa abre-se um vazio dramático, com cerca de cinco metros de altura, que redefine completamente a escala e a perceção do espaço. É através deste gesto que a luz natural, proveniente da fachada voltada a sul, atravessa a casa e a estrutura, levando luminosidade a zonas que, à partida, seriam mais confinadas.

“Percebemos que a solução mais interessante não passava por acrescentar, mas por reorganizar. Ao posicionar a área social no nível inferior e libertar um volume em altura, conseguimos trazer luz até ao coração da casa”, explica Adam Arya, cofundador do atelier.

A organização distribui-se por dois níveis, com os quartos resguardados na parte posterior do piso térreo. Aqui, a luz chega de forma mais suave, filtrada por janelas orientadas a norte, criando ambientes mais íntimos e silenciosos. Para reforçar essa relação com o restante espaço sem comprometer a privacidade, o projeto recorre a vidro canelado, que permite a passagem difusa da luz entre divisões.


No centro da casa, uma escada escultórica assume-se como elemento-chave. Mais do que uma simples ligação entre pisos, funciona como eixo vertical do projeto — quase uma peça de mobiliário à escala arquitetónica — que conduz o olhar e acentua a altura do vazio central.
No piso inferior, abre-se a zona social em open space, pensada como um cenário contínuo e fluido. A cozinha organiza-se em torno de uma ilha central, ponto de encontro e de uso quotidiano, enquanto a área de estar ocupa a extremidade oposta, num ambiente descontraído mas visualmente coeso. A linguagem é contida, deixando que os materiais e a luz definam o carácter do espaço.



Há também uma preocupação clara com o futuro. A configuração permite que parte desta área venha a ser adaptada, integrando uma nova divisão conforme as necessidades evoluam — um gesto pragmático que prolonga a vida útil da casa sem comprometer o conceito original.



“Em contextos urbanos condicionados, é fácil cair na tentação de maximizar cada metro quadrado. Aqui fizemos o contrário. Ao abdicar de alguma área, criámos um volume que transforma por completo a forma como a casa é vivida”, acrescenta Adam Arya.





O resultado é uma habitação que desafia a lógica da densidade, apostando antes na qualidade espacial. Mais do que uma simples reabilitação, a Notting Hill House é um exercício de equilíbrio entre memória e contemporaneidade, onde a luz não é apenas um elemento funcional — é a verdadeira matéria do projeto.

