Por a 6 Maio 2026

Projeto de arquiteturaAtelier Tiago do Vale, Arquitectos | Ano do projeto: 2015-2019 | Fotografia: João Morgado | segundo a memória descritiva

Erguido em 1773 sobre as fundações de uma capela consagrada a São Gregório Magno (datada dos primórdios do século XVII), o Santuário do Senhor do Socorro permanece como um dos mais importantes destinos de peregrinação do Alto Minho. Situado na encosta da Serra da Labruja, vizinho do Caminho de Santiago e com amplas vistas sobre o vale do Rio Labruja, o Hotel da Casa das Cerdeiras habita este território e partilha com o Santuário parte da sua história.

A casa que hoje se apresenta resulta da sobreposição de sucessivos ciclos de construção, abandono, reconstrução e transformação, nunca documentados. O núcleo inicial, com elementos datados de 1747, seria uma estrutura simples e paralelepípica de um só piso, cuja presença ainda se adivinha na composição das fachadas sobreviventes, cuidadosamente aparelhada numa combinação de granito e xisto, refletindo a geologia particular do lugar.

O conjunto desenvolve-se a partir desse núcleo primitivo: uma construção representativa de uma arquitetura rural de matriz agrícola mas que revela, também, uma riqueza e dignidade que a destacam do contexto imediato.

Como tantos edifícios do mundo rural português, foi crescendo de forma orgânica, tanto em área como em altura, através de sucessivas ampliações. Reconstruiu-se uma vez mais durante a primeira metade do século XX, já com estrutura porticada em betão pelo interior, mantendo a volumetria pré-existente (entretanto arruinada), desenhando um corpo em “L” que encerra um logradouro com acesso pela rua.

Da construção original persiste apenas parte das fachadas, no interior das quais, ainda assim, sobrevivem elementos que, pela sua natureza e acabamento, refletem a sua condição como propriedade do Reitor do Santuário. O exercício de reabilitação da Casa das Cerdeiras e a sua adequação ao programa de hotel implicaram, portanto, abordagens distintas, respeitando o passado sem o mitificar, num convívio de diferentes tempos, usos e memórias, dispersos por diferentes partes do edificado.

A reposição (ainda que simplificada, claramente distinta de um restauro especulativo) de elementos tradicionais já desaparecidos (como rodapés, coberturas, caixilharias ou portadas) nos panos de fachada sobreviventes procurou valorizar a preexistência, minimizando distrações introduzidas por elementos posteriores.

Simultaneamente, procedeu-se à reconstrução de peças parcialmente desaparecidas (como o palheiro), que são levantadas de uma forma que, embora cite diretamente o que terá sido no passado, não apresenta ambiguidades em relação ao tempo da intervenção.

Finalmente, as construções de raiz que complementam as construções pré-existentes, resolvendo as necessidades (quer em área de construção quer em desempenho) do novo programa são, igualmente, claras na sua contemporaneidade, desenvolvendo-se horizontalmente numa volumetria simplificada que se subordina às construções originais e que permite, pelo contraste, que estas se afirmem e valorizem.

A organização do edificado assenta nos princípios do lugar, retomando a ligação entre a casa e o palheiro ao longo de um muro preexistente, e desenhando a partir daí as ligações à nova ala de quartos.

O antigo terreiro transforma-se na grande sala da casa, e os anexos implantam-se atrás de muros de suporte graníticos, repetindo as soluções que sempre compuseram o território da Casa, ligando-se os sucessivos socalcos com a introdução de escadas pontuais.

Entre os socalcos da casa e da piscina em granito (memória dos tanques de rega minhotos) abre-se um pequeno auditório, lugar de contemplação do pôr-do-sol.

A entrada, feita agora pelo antigo portão do logradouro, é o cartão de visita do conjunto.
O grande vão é reinterpretado como uma porta de escala doméstica, onde se ensaiam referências à arquitetura vernacular do Alto Minho (as namoradeiras, o ripado dos espigueiros ou as tintas com pigmento de sulfato de cobre) para produzir, partilhando um vocabulário comum, um novo desenho.

Ultrapassado este limiar, o visitante é acolhido por um plano vertical em espiral, que organiza acessos e filtra pontos de vista, protegendo o umbigo da casa: uma sala que mantém a experiência de pátio exterior, desenhada por um tapete de mosaico hidráulico e por uma grande claraboia, inscrevendo a evolução da luz solar (e, à noite, a experiência do luar e do céu estrelado do interior minhoto) no coração do espaço.

Subindo a escada, controlada por esse mesmo plano, descobre-se, chegando ao topo, um vão rasgado que oferece um olhar desafogado sobre o Santuário e as copas circundantes, iluminando todo o espaço, ao nascer do dia, com uma luz filtrada pelas folhas das árvores.

Os espaços sociais do hotel organizam-se, assim, no piso térreo, onde se incluem, na casa pré-existente, a sala estar, a sala de jantar e uma pequena sala de inverno. Complementam-se, ainda, com um quarto acessível, uma lavandaria, uma adega e uma instalação sanitária.

Seguindo um novo corredor que liga a casa ao palheiro reconstruído, encontramos a cozinha, que ocupa o rés-do-chão da construção. Embora de construção contemporânea, a cozinha recorre a materiais, detalhes e opções de desenho que evocam a arquitetura popular minhota (louceiros, pedra mármore rosa, azulejo manual), servindo aqui a memória como matéria construtiva.

No piso superior do palheiro, um espaço de refeições acompanha a cozinha e abre-se ao vale a Sul, protegido por um ripado que controla os ganhos solares e filtra a vista.

Esta reconstrução reproduz um sistema estrutural tradicional, com vigas e barrotes em madeira de carvalho sob um soalho de castanho, com idêntica solução (com forro em pinho tratado sob telha, incluindo agora isolamento e impermeabilização entre eles) na cobertura.

É, portanto, no piso superior que encontram os aposentos.

Na casa preexistente inscrevem-se uma ampla suíte e dois quartos. Atrás das fachadas sobreviventes encontramos rodapés altos, de detalhes simples mas de inspiração clara em tipologias comuns em casas deste tipo, e caixilharias e portadas em madeira que partilham a mesma lógica. A cobertura, como no palheiro, retoma o sistema construtivo vernacular da região. Nestes espaços, os detalhes tradicionais cruzam-se com elementos contemporâneos (como os rodapés embutidos e minimais das novas compartimentações) numa transição fluida e sem resistências.

O corredor que conduz ao piso superior do palheiro culmina num espaço charneira, marcado por um pátio exterior que enquadra uma oliveira, e que distribui as circulações entre a casa preexistente, o espaço de refeições do palheiro, e a nova ala de quartos.

Nesta nova ala organizam-se aposentos simples onde a relação com a paisagem do vale do Rio Labruja se impõe como principal protagonista.

A obra preserva, assim, a lógica de um conjunto fragmentado, composto por volumes autónomos mas articulados, coroando um território desenhado por socalcos e robustos muros graníticos: uma história feita de tempos sobrepostos, todos enraizados no lugar, nos seus materiais, nas suas tradições e práticas construtivas.

O Hotel da Casa das Cerdeiras é, assim, mais um episódio no longo processo de reconstrução e adaptação que molda a história da Casa desde a sua fundação em 1747, mais um capítulo no seu legado de continuidade e transformação, de permanência e renovação.