Assinado por Marcela Penteado Arquitetos, este projeto resgata memórias afetivas e valoriza a materialidade num apartamento que celebra o reencontro.
Projeto: Marcela Penteado Arquitetos | Fotografias: Fran Parente | Texto: segundo memória descritiva
Na Vila Nova Conceição, em São Paulo, um apartamento de 280 m², originalmente construído na década de 1990, renasceu através de uma intervenção que atualiza a sua linguagem sem apagar os vestígios do tempo. Assinado pelo atelier Marcela Penteado Arquitetos, o projecto constrói-se a partir de uma narrativa íntima para dar forma a uma arquitectura serena, onde matéria, memória e quotidiano se equilibram.





No centro desta transformação está uma história de reencontro: a de um casal que, após se ter conhecido na juventude e seguido caminhos distintos, volta a cruzar-se anos mais tarde, na mesma cidade. Essa dimensão afectiva traduz-se num espaço que privilegia a permanência e o cuidado, recusando excessos. Aqui, cada decisão parece respeitar o ritmo do tempo.


As características originais do edifício foram assumidas como matéria de projecto, integradas numa narrativa espacial coerente. Na área social, um recorte acolhe uma estante em madeira de ipê, que incorpora um bar e um nicho em quartzito Via Appia. Em contraponto, o sofá acompanha a geometria do espaço, diluindo fronteiras entre a zona de estar e o home cinema, que pode ser isolado ou integrado através de uma porta camarão.


A madeira reveste as paredes e envolve o espaço social, criando uma atmosfera quente e contínua. No hall de entrada, o revestimento em palha de seda verde de Nani Chinelato antecipa subtilmente a paleta cromática do projecto. A cor surge de forma indirecta, revelando-se nas fibras naturais, nos tecidos, nos tapetes e nos tons amarelados das pedras.
A selecção de mobiliário articula diferentes tempos e linguagens, cruzando peças históricas do design brasileiro com criações contemporâneas e desenhos exclusivos do ateliê. Sem hierarquias rígidas, objectos encontrados em antiquários convivem com peças actuais, reforçando uma ideia de continuidade e permanência.
Entre os destaques, surgem nomes incontornáveis como Jorge Zalszupin e Sergio Rodrigues, ao lado de autores contemporâneos como Jader Almeida e Isabelle de Mari. Mesas, poltronas e peças de apoio compõem um cenário onde o design é vivido e não apenas exibido. Os tapetes Punto e Filo ajudam a unificar visualmente os ambientes, funcionando como elementos de transição.



Na sala de jantar, uma mesa desenhada pelo próprio ateliê, com tampo em quartzito Roma Imperiale, introduz um contraponto mineral à omnipresença da madeira, sublinhando a riqueza material do projecto.
A cozinha, desejo central da moradora — psicóloga de profissão e cozinheira por prazer — foi totalmente integrada, tornando-se o coração da casa. A linguagem da marcenaria mantém-se coerente com a área social, enquanto o quartzito Taj Mahal nas bancadas e paredes reforça a unidade visual.



Na suíte principal, o piso em madeira escura contrasta com as paredes claras revestidas a papel, enquanto a marcenaria em louro-preto prolonga o tom do chão, criando um equilíbrio subtil entre sobriedade e conforto. Um tapete colorido introduz leveza e quebra a contenção cromática, em diálogo com os tecidos e com uma iluminação suave.







A componente artística faz-se sentir através de obras de Di Cavalcanti, que convivem com a poética escultura de árvore de Jorge Mayet. Completam o conjunto trabalhos de Octávio Ferreira de Araújo, Manoel Bersam e Omar Rayo, integrados de forma orgânica.

