Projetada pelo Atelier Ricardo Azevedo, a Casa da Encosta, em Santo Tirso, nasce da paisagem que a envolve, numa arquitetura que privilegia quem a habita e que foi reconhecida pela ArchDaily.
Arquitetura: Atelier Ricardo Azevedo | Fotografias: Ivo Tavares | Texto: segundo memória descritiva
A Casa da Encosta, projetada pelo Atelier Ricardo Azevedo, surge como resposta precisa e sensível à geografia do lugar. Implantada num terreno inclinado, a casa não impõe uma forma à paisagem. Pelo contrário, deixa-se moldar por ela, num gesto de continuidade que transforma a topografia num elemento estruturante do projeto.


Na Casa da Encosta a luz não acorda ninguém. Chega devagar e revela-se sobre o mármore do chão, aquece a madeira, atravessa as cortinas e entra no quarto.


É assim, com este tempo e silêncio, que começa um dia nesta casa de Santo Tirso. Uma casa que Ricardo Azevedo desenha não para impressionar quem passa, mas para servir profundamente quem a habita — e que a ArchDaily reconheceu, ao nomeá-la para o Prémio Building of the Year Award 2026, como uma das obras residenciais mais significativas do ano.



A encosta deu o nome e a ideia. O terreno desce suavemente em direção à paisagem do Minho, e a casa acompanha esse movimento sem resistência, pousada sobre o solo com leveza, aberta ao jardim, transparente quando a vista merece. Não há gesto forçado. Há uma continuidade entre o que foi construído e o que sempre esteve ali, algo que só se consegue quando o projeto começa pela escuta, e não pela forma.


Chegamos antes de entrar. O percurso de acesso tem um ritmo próprio, uma cobertura que acolhe e encaminha, uma oliveira que marca a passagem: do exterior que é de todos, para o mundo interior que é só nosso. Aqui, o corpo abranda, a respiração muda. É um detalhe que não se consegue fotografar, mas que também não se esquece.
Na Casa da Encosta, a sala convida-nos a ficar. O espaço do jardim entra pelo vidro, a luz da tarde instala-se e ninguém tem pressa de sair. O corredor é o relógio natural da casa, sempre em movimento com a natureza, o vento, o céu que muda de hora a hora, do outro lado do vidro.



A escada de madeira faz da subida uma pausa consciente, uma curva suave, com a naturalidade de um gesto antigo. Os quartos resguardam-se do mundo com a intimidade certa: procuram a paisagem sem se fazerem procurados pelo exterior.


São estes os momentos que ficam. Não as fotografias, não as descrições, mas o que o corpo guarda sem pedir autorização: o frescor da pedra num dia de verão, o cheiro da madeira numa manhã de inverno, a qualidade do silêncio de uma casa que foi pensada para quem a vive. A forma como um espaço nos recebe, nos acalma e, no fundo, nos devolve a nós próprios.



Ao fim do dia, quando o sol de Santo Tirso toca a fachada envidraçada e a transforma em espelho da paisagem, as vinhas, o céu, a cidade que se adivinha ao longe, a Casa da Encosta revela com clareza aquilo que é: não uma declaração de arquitetura, mas uma declaração de vida. Com tempo. Com presença. Com a certeza silenciosa de que este lugar foi pensado, desde o início, para quem o habita.

