A renovação do apartamento do galerista Thibaut Van Der Bergh, no bairro do Marais, em Paris, tem a assinatura do estúdio AFTER BACH, fundado por Francesco Balzano. Concebido como uma conversa arquitetónica, o espaço expressa a visão partilhada do designer e do galerista.
Projeto: AFTER BACH / Fotografias: Vincent Leroux / segundo memória descritiva
No terceiro piso de um edifício típico do Marais, em Paris, um apartamento de 120 m² transforma-se num manifesto silencioso sobre o equilíbrio entre arquitetura e design colecionável. O projeto nasce da relação de longa data entre Thibaut Van Den Bergh, fundador da galeria KOLKHOZE, e o designer francês Francesco Balzano, que assina este projeto através do seu estúdio AFTER BACH.



Balzano é conhecido por uma abordagem assente em princípios rigorosos de composição e numa estética subtil, quase silenciosa. Aqui, essa contenção torna-se o cenário ideal para acolher peças de mobiliário-escultura e obras de arte contemporânea. “Precisava deste rigor para criar um espaço propício a peças fortes”, explica o designer. O resultado é um diálogo entre designer e galerista, um interior onde luz, materiais naturais, simplicidade e autenticidade constroem ambientes elegantes.

A planta em L organiza claramente as funções: do lado da rua, duas divisões amplas e consecutivas — sala de jantar com cozinha aberta e sala de estar — afirmam-se como um conjunto volumétrico contínuo; do lado do pátio, duas suites garantem o isolamento necessário ao descanso. A entrada, marcada por madeira trabalhada, introduz desde logo a linguagem material do projeto.





A pedra é protagonista absoluta — nos pavimentos, ombreiras, lareira, cozinha e casas de banho — equilibrada pela suavidade da lã e pela presença de alcatifas sedosas em tom marfim. A carpintaria em carvalho maciço, ligeiramente tingida, funciona como elemento de transição entre superfícies minerais e têxteis. Nas zonas húmidas, o mármore verde alpino acrescenta profundidade, enquanto a cozinha surge em Breccia Aurora. A paleta cromática — verdes acinzentados, marfim e cinza quente claro — reinterpreta com delicadeza o espírito histórico do bairro.



Mas é no diálogo entre arquitetura e peças de autor que o projeto se afirma plenamente. “Vejo as peças de design como pinturas”, sublinha Balzano. Não há intenção de correspondência formal rígida; cada objeto deve ser suficientemente forte para coexistir com os restantes. O todo torna-se, assim, uma coleção habitável.


Na sala de estar, a lareira em mármore desenhada por Francesco Balzano funciona como peça central, acompanhada por bancos igualmente assinados pelo designer. O conjunto é complementado por sofá, poltronas e mesa de centro de Frédéric Pellenq, candeeiros “Lizard” de Thomas Lemut e um candeeiro de pé de Robinson Ferreux — num equilíbrio entre presença escultórica e contenção arquitetónica.


A sala de jantar integra uma mesa de Martin Massé sob um lustre em vidro soprado de Jeremy Maxwell Wintrebert, enquanto cadeiras da Rooms dialogam com uma mesa de apoio em mármore Raw Material e uma escultura de grande escala de Laurent Dufour. Na cozinha, um fresco em marmorino de Nicolas Reese acrescenta uma dimensão artística inesperada, acompanhado por um tabuleiro em bronze desenhado por Balzano e uma consola em bronze de Victor Guedy.

A entrada assume-se como espaço expositivo: consola em bronze de Johan Vilasrich, candeeiro de Robinson Ferreux e escultura em madeira de Frédéric Pellenq introduzem a narrativa colecionista da casa. Já na suíte principal, um banco em pele de Milena Polania e uma mesa de apoio em pedra de Francesco Balzano reforçam a coerência material, pontuados por luminárias em latão de Thomas Lemut.


Entre cerâmicas da galeria de Aurélien Gendras, pinturas da Geoffroy Dasse Antiquités e têxteis da Frette, o apartamento constrói-se como um território de contemplação. A arquitetura minimalista e a atenção ao detalhe criam uma atmosfera de calma rara no coração histórico de Paris — um espaço onde cada peça encontra o seu lugar sem ruído, afirmando que o verdadeiro luxo pode residir na precisão, na matéria e no silêncio.
