A casa de Emma Sepúlveda é um refúgio de luz, memória e criação. Um espaço onde a amplitude contemporânea encontra a intimidade mediterrânica e onde viver e trabalhar se fundem com naturalidade.
Projeto: HOMU Arquitectos | Fotografias: Bacon Studio | Texto: Isabel Pilar de Figueiredo
Projetada pelo estúdio HOMU Arquitectos, esta habitação de 237 m², situada num edifício histórico da Gran Vía de Valência, foi integralmente transformada para acolher a nova vida da escritora chilena e do seu marido, chegados à cidade após décadas nos Estados Unidos. Procuravam uma casa luminosa, ampla e profundamente pessoal — um lugar capaz de dialogar com a essência mediterrânica sem abdicar da fluidez espacial a que estavam habituados.




A intervenção partiu de premissas claras: recuperar a máxima altura dos tetos, preservar e reinterpretar as molduras originais, privilegiar espaços abertos e reforçar a ligação visual à alameda. Mais do que uma reforma, tratou-se de criar um cenário doméstico onde a cultura mediterrânica pudesse ser vivida em pleno, mantendo a escala e a liberdade espacial da experiência americana.


O programa distribui-se de forma contida dentro da generosa área disponível: uma única suíte principal com closet, um quarto de hóspedes pensado sobretudo para as netas do casal e, no restante, uma vasta zona social contínua, concebida para cozinhar, conversar, receber e descansar sem barreiras.


A entrada faz-se por um acesso amplo que conduz a um corredor de teto abobadado, orientando o olhar até à cozinha. Generosa e inundada de luz, organiza-se em torno de uma grande ilha central que convida a cozinhar e a partilhar refeições sem pressa — uma ponte subtil entre a tradição americana da cozinha como coração da casa e o ritmo pausado do viver mediterrânico. Uma lavandaria oculta, escondida por uma porta de correr, mantém a pureza visual do espaço.




Do lado oposto, a sala desenvolve-se através de elementos divisórios que não tocam o teto, estratégia que preserva a continuidade da luz e a perceção de amplitude, ao mesmo tempo que cria ambientes distintos. A grande mesa de jantar assume o protagonismo. Junto a ela, um pequeno salão inspirado no efeito de gruta oferece um contraponto íntimo e resguardado, pensado para momentos a dois ou encontros mais próximos.


À esquerda, um primeiro escritório aberto expõe, num móvel desenhado à medida, a coleção de câmaras fotográficas de Emma Sepúlveda. Um segundo volume separa este espaço da zona de estar e televisão, igualmente ampla e sem fechos visuais. Duas portas recuperadas de demolições marcam este ambiente e conduzem ao escritório privado da autora, um lugar de recolhimento indispensável ao seu processo criativo.



A linguagem estética define-se como um “minimalismo com alma e propósito”, conciliando depuração formal com densidade emocional. A paleta cromática, de brancos e cinzas, evoca a tela em branco enfrentada por qualquer criador, permitindo que a arquitetura se dilua e que obras de arte, fotografias e peças trazidas do Chile ou adquiridas ao longo da vida encontrem o seu lugar com naturalidade.


As molduras assumem papel central. A necessidade de instalar ar condicionado por condutas implicou refazer o teto falso, oportunidade que o estúdio aproveitou para ganhar altura e introduzir perfis de maior escala, agora reinterpretados numa linguagem contemporânea e integrados na carpintaria desenhada à medida, reforçando a coerência do conjunto.



No chão, um porcelânico contínuo percorre toda a casa sem interrupções, funcionando como manto sereno que amplifica a presença da luz e das peças artísticas.



A materialidade equilibra elementos contemporâneos com peças recuperadas. Portas interiores e lavatórios em pedra provenientes de demolições foram criteriosamente selecionados, restaurados e readaptados, fragmentos de outras casas que aqui iniciam nova vida. A iluminação, assinada pela Arkoslight, integra-se de forma discreta, sublinhando sem competir e deixando à luz natural o papel principal.


Mais do que um exercício arquitetónico, esta casa reflete a história pessoal de Emma Sepúlveda — poeta, ensaísta, crítica literária, fotógrafa e ativista dos direitos civis, figura pública em Nevada durante mais de cinquenta anos. Depois de um período marcado pela crescente violência social nos Estados Unidos, o casal escolheu Valência para recomeçar. A casa materializa essa decisão: um lugar de abrigo e criação, pensado para escrever, recordar, receber e, sobretudo, voltar a começar.

