Por a 16 Abril 2026

Viver neste apartamento é, sobretudo, experimentar uma nova relação com o espaço e com a cidade. Ao redesenhar completamente a planta e reduzir a materialidade a poucos elementos, a intervenção do Estúdio Cedo constrói um equilíbrio onde a cozinha, inesperadamente, se afirma como o cenário mais emblemático da transformação.

Projeto: Estúdio Cedo | Fotografias: André di Gregorio + Maíra Acayaba 

No décimo nono andar de um dos edifícios mais emblemáticos de São Paulo, este apartamento revela uma transformação radical que parte de um gesto simples: abrir o olhar para a cidade.

O ponto de partida do projeto foi claro — ampliar as possibilidades visuais e devolver protagonismo ao horizonte. A partir de um mapeamento rigoroso da superestrutura do edifício, a intervenção propõe uma reorganização total da planta, substituindo compartimentações rígidas por uma sequência fluida de ambientes sociais voltados para a extensa fachada de vidro.

É nesse perímetro privilegiado que acontece a principal inversão de lógica: onde antes havia um quarto, surge agora a cozinha — assumida como coração da casa. Executada em madeira tauari maciça, a bancada de cocção e a ilha recebem tampo em mármore Espírito Santo, num desenho orgânico que abraça um dos pilares estruturais. Ao ultrapassar o eixo desses elementos, o gesto dissolve limites e reforça a continuidade espacial entre cozinhar, receber e habitar.

A antiga organização do apartamento cede lugar a uma nova narrativa doméstica. O quarto central transforma-se em sala de jantar, enquanto, na outra extremidade da fachada, a sala de estar e a biblioteca — desenhada em chapas metálicas — organizam-se em torno da paisagem. A essa altura, a cidade revela-se em camadas: não há ruas ou movimento imediato, apenas a sobreposição de edifícios de diferentes épocas e, ao fundo, a presença constante da Serra da Cantareira.

Em contraste, os espaços íntimos recuam para a fachada posterior, marcada por elementos vazados, garantindo privacidade sem abdicar da ventilação cruzada — uma qualidade já existente, mas agora ampliada pela nova configuração mais aberta.

A estratégia espacial ganha ainda mais força com a criação de um plano elevado: o piso sobe 18 centímetros e recebe placas de betão pré-fabricado, desenhadas segundo o ângulo da própria fachada. Esta intervenção reforça a mudança de uso dos ambientes e introduz um jogo de níveis que dinamiza a circulação. O escritório, implantado no antigo espaço da cozinha, projeta-se parcialmente sobre este plano, criando a sensação de leveza e suspensão.

Versátil por natureza, o atelier surge como um espaço mutável, capaz de se transformar futuramente numa suíte. Já o quarto principal estabelece uma relação mais permeável com a casa de banho, separado por caixilharias de madeira e vidro que permitem a entrada de luz natural e promovem a ventilação cruzada. Neste ambiente, a banheira e a bancada em betão pré-fabricado reafirmam a materialidade que norteia o projeto.

A paleta é contida e precisa: madeira tauari, betão — ora original, ora pigmentado em branco e rosa — e pedra natural compõem uma base sensorial que equilibra um lado mais cru com outro mais sofisticado. A marcenaria, integralmente em madeira maciça, contribui para tornar os espaços mais acolhedores.

Na decoração, peças de design brasileiro dialogam com a arquitetura — como as poltronas de Sergio Rodrigues — enquanto objetos afetivos e memórias de viagem encontram lugar em prateleiras desenhadas por medida. A iluminação, predominantemente indireta, reforça o caráter íntimo dos espaços, com fitas de LED, arandelas e pontos de apoio que valorizam volumes e texturas.