Por a 19 Abril 2026

A arquiteta Emanoella Rosa Pagliosa foi selecionada pela curadora Marva Griffin para expor no SaloneSatellite, evento que decorre em paralelo com a Semana de Design de Milão. Natural de Balneário Camboriú, no Brasil, Emanoella apresenta a coleção Piercing, uma linha de mobiliário em metal que transforma referências do movimento punk em peças pensadas para o ambiente doméstico.

O painel de 12 curadores, liderado por Griffin, que avalia candidaturas de designers de vários países, apontou na direção de Emanoella. “Quando recebi a carta de seleção, foi uma surpresa enorme”, conta a arquiteta. “Há designers que participam com o apoio de marcas ou programas de exportação. No meu caso, fui escolhida de forma independente, através de uma candidatura aberta.”

A coleção nasceu de uma observação feita durante uma viagem a Londres, considerada o berço do movimento punk. “Sempre tive uma forte ligação ao rock, uma influência muito presente na minha infância e adolescência”, explica. Na capital britânica, visitou a loja de Vivienne Westwood para compreender melhor as origens deste universo estético.

O que mais chamou a sua atenção foram os acessórios: piercings, brincos, argolas. A coleção transporta essa linguagem corporal para o mobiliário. Num aparador, uma chapa de aço inoxidável curva-se como pele e é atravessada por um piercing metálico. A mesa lateral Barbel, nome inspirado num tipo de piercing, apresenta uma base em pedra que evoca a anatomia feminina. Noutra peça, um rasgo no metal é atravessado por um brinco, reforçando a ideia de tensão e intervenção no material.

Se a inspiração estética vem do punk, a escolha do material tem raízes mais profundas. O avô de Emanoella fundou uma metalúrgica ligada a componentes industriais; por seu turno, a avó tinha uma forte ligação aos acessórios. “A minha avó usava sempre muitos brincos e colares. Essa memória acabou por se cruzar com a estética punk de forma inesperada”, conta.

Nas suas mãos, o metal — naturalmente rígido — ganha um tratamento mais sensível. “O meu desafio era trazer delicadeza ao metal e afastar-me da serralharia convencional”, explica. A resposta surgiu através do estudo das curvaturas. “Quis tratar o metal como se fosse pele. No piercing, a pele é puxada, tensionada. Trouxe esse conceito para as peças.” A ideia passa por criar uma espécie de “acessórios para a casa”.

As peças que serão apresentadas em Milão são produzidas pela Mekal, em aço inoxidável, com detalhes em vidro e pedra natural. Em vez de recorrer a materiais italianos para expor em Itália, a designer optou por utilizar pedra-sabão brasileira e apostar no reaproveitamento de desperdícios de marmorarias. “Nas visitas que fiz, reparei sempre nas sobras que acabam descartadas. Comecei a pensar em formas de dar uma nova vida a esse material”, explica.

A coleção permite ainda a personalização dos acabamentos metálicos, seguindo a lógica dos acessórios de moda: o cliente pode escolher entre inox escovado e acabamento dourado, tal como escolheria uma peça de joalharia. A presença de Emanoella em Milão representa, também, uma contribuição feminina ainda pouco comum no design em metal. Alê Sales, o seu coordenador na pós-graduação no Instituto Europeo di Design, apelidou-a de “menina das joias” e incentivou-a a aprofundar o trabalho com este material. “Falta um olhar mais feminino no design em metal”, observou.

A arquiteta aceitou o desafio. Afinal, o punk é, acima de tudo, uma afirmação de identidade. “Mais do que um género musical, o punk é uma forma de afirmar quem somos.”