Entre herança e contemporaneidade, podemos dizer que este projeto é um exercício de edição: escolher o que fica, o que se transforma e como tudo se articula. O resultado? Uma casa pensada para o presente, mas com ecos do passado.
Projeto: FPL – Interior Design / Fotografias: Teresa Aires
Num edifício de traça antiga em Alcântara, este apartamento revela como a reabilitação pode ser um exercício de equilíbrio. Assinado pelo atelier FPL – Interior Design, o projeto parte de uma premissa clara: preservar o carácter original enquanto se constrói uma linguagem contemporânea, leve e habitável.



A base estava lançada — luz natural abundante, um pé-direito generoso de três metros e o pavimento em tábua corrida, cuidadosamente recuperado. A isto somava-se um pedido particularmente desafiante: integrar peças clássicas herdadas, carregadas de valor emocional, sem comprometer a fluidez visual de uma casa pensada para o presente.
O projeto começou por reorganizar. A redefinição do layout foi determinante para responder a uma evidente falta de arrumação e a uma distribuição pouco eficiente. A antiga sala de estar transformou-se numa sala comum, onde estar e jantar coexistem com naturalidade.
Na zona de refeições, um antigo canapé ganha protagonismo: recuperado com pintura decapé branca e novo estofo, torna-se elemento-chave não só pela carga simbólica, mas pela inteligência espacial — encostado à janela, liberta área útil e contribui para uma atmosfera acolhedora. A envolvência é subtil: um papel de parede de inspiração clássica, em tom claro, evoca os painéis franceses, enquanto peças contemporâneas — aparador, iluminação, espelho — introduzem leveza e atualidade.



Já na zona de estar, a narrativa cromática nasce de uma obra de Tiago Martinho Magalhães. O amarelo mostarda afirma-se como acento dominante, dialogando com preto, branco, azul e os tons quentes da madeira. Dois cadeirões antigos, reestofados nessa cor, reforçam esta ponte entre épocas, demonstrando como o gesto certo pode recontextualizar o passado.



A composição das paredes segue a mesma lógica: uma galeria de quadros em arranjo desalinhado quebra a rigidez do clássico, enquanto uma estante de desenho leve enquadra peças mais tradicionais. O resultado é um jogo contínuo de tensões equilibradas — entre peso e leveza, ornamento e depuração.


Nos espaços de transição, como o hall e o corredor, o projeto mantém coerência: a arquitetura original é valorizada, mas suavizada por apontamentos contemporâneos que evitam qualquer excesso de formalismo.





A transformação mais significativa acontece talvez na zona privada. Dois quartos comunicantes dão lugar a uma suíte mais ampla, complementada por um closet generoso — solução pragmática para uma casa que carecia de arrumação. Aqui, a linguagem abranda: tons neutros, materiais suaves e uma atmosfera pensada para o descanso. O papel de parede, com efeito trompe-l’œil, simula uma estante clássica, reinterpretada de forma gráfica e subtil, reforçando o conceito transversal do projeto.

O recurso a módulos IKEA (linha PAX), adaptados à medida, evidencia uma abordagem inteligente e acessível à personalização — um detalhe particularmente relevante para profissionais atentos à relação entre orçamento e resultado.
