Assinado pelo atelier Garmendia Cordero Arquitectos, este projeto de reabilitação no sul do País Basco, devolve sentido contemporâneo a uma construção tradicional, numa área de 200 m². Concluída em 2022, a obra foi distinguida nos Prémios de Arquitetura 2022 do CSCAE e recebeu o Primeiro Prémio nos Prémios Arquitectura Plus 2025, afirmando-se como um exercício exemplar de diálogo entre património, habitar e projeto contemporâneo.
Fotografia: Pedro Pegenaute Projeto: Garmendia Cordero Arquitectos Texto: segundo a memória descritiva
A evolução da forma de habitar e de produzir da sociedade em geral, e da sociedade basca em particular, levou a que, num processo relativamente rápido, a grande maioria dos caseríos tradicionais tenha perdido o seu sentido funcional original.


O seu funcionamento perfeitamente articulado, a meio caminho entre a fábrica e o lar, foi-se dissipando à medida que a pecuária extensiva e a pequena agricultura perderam peso na economia basca. Como consequência, inúmeros baserris ficaram vazios, muitas vezes demasiado grandes e dispendiosos de manter quando utilizados exclusivamente como habitação.
Intervir num edifício desta natureza implica, para além de uma responsabilidade cultural, a necessidade de uma análise prévia que permita abordar o processo de projeto de forma sensata e coerente. No caso da Garaitia etxea, apesar de se encontrar desocupada e sem qualquer uso há vários anos, o seu estado de conservação era mais do que notável.
Trata-se de um caserío de pequenas dimensões para a época, mas com uma presença imponente, dominado por uma fachada principal orientada a sul, com um grande portão, dois balcões e quatro vãos dispostos numa simetria perfeita, que se impõe sobre as restantes fachadas, muito mais opacas e silenciosas.


Um pequeno alpendre lateral a nascente, já sem cobertura, e um anexo de reduzidas dimensões na extremidade do edifício completam um conjunto totalmente envolvido por impressionantes pinhais.
No interior, o edifício organiza-se com um rés-do-chão destinado ao gado, um primeiro piso habitacional e um desvão de cobertura para armazenamento de feno.
Por fim, uma estrutura principal em perfeito estado divide o espaço em três vãos quase iguais.
A intervenção partiu sempre da vontade de manter, tanto quanto possível, a identidade do caserío original, sem ignorar a transformação inerente ao ato de habitar hoje um espaço com estas características.
Assim, não só se conservou e reutilizou a estrutura principal de pilares e vigas, como também se manteve a estrutura de vigamento secundário (solivería), ainda que com funções reinterpretadas em função da sua localização.


O vigamento dos dois pavimentos no primeiro vão foi integralmente preservado, mas desvinculado da função de laje, permitindo a leitura do espaço em toda a sua dimensão e a entrada de luz natural ao longo de todo o volume interior. Simultaneamente, esta solução delimita a altura dos espaços intermédios, evitando uma perda excessiva de controlo da escala que poderia gerar uma sensação pouco humana. Além disso, este vigamento permitiu apoiar duas passagens leves de acesso aos vãos da fachada principal e aos respetivos balcões, sem necessidade de soluções estruturais complexas.
No vão central, manteve-se o pavimento de madeira existente no primeiro piso, sobre o qual foi aplicado o novo revestimento, solução igualmente adotada no primeiro e segundo pisos do último vão. Para além de uma elevada eficiência estrutural e económica, esta opção gera um interessante jogo de perceções visuais: ao olhar para cima, observa-se sempre a estrutura horizontal original — vigas, barrotes e pavimento —, enquanto ao olhar para baixo, a imagem corresponde aos novos acabamentos do projeto.
Esta decisão de “apropriação” resulta numa secção tripartida equilibrada e atrativa, que permitirá, mantendo o mesmo esquema, um futuro aumento da área útil, caso seja necessário, bastando executar novos pavimentos sobre a estrutura original, tal como nesta fase.
Uma vez definida a área a ocupar, optou-se por uma intervenção de contraste: uma nova arquitetura introduzida no espaço existente em oposição à original.
A nova compartimentação apresenta-se o mais depurada possível face à força expressiva da pedra irregular. A nova escada, que complementa um primeiro lanço já existente, foi concebida com a máxima leveza e sem contacto com a anterior. Surge a cor e, sempre que se altera um vão de fachada, este é destacado por um aro metálico. Em síntese, assume-se uma estratégia clara de diferenciação entre o novo e o antigo, que, nesse confronto direto, dá origem a um conjunto forte e imediato.
Para além da intervenção já executada, fica definida uma segunda fase que, seguindo os mesmos princípios, permitirá no futuro a ocupação do segundo piso, com acesso através de uma escada integrada em mobiliário e a criação de um terceiro quarto com a respetiva instalação sanitária.
Finalmente, o projeto procurou, em todas as fases, minimizar a produção de resíduos de obra. Ao reaproveitamento estrutural já descrito soma-se a reabilitação e reutilização de muitos outros elementos existentes — portas, mobiliário, pedra, telhas — culminando num resultado sustentável e circular, que reforça ainda mais a ideia inicial de preservação da identidade arquitetónica do edifício intervencionado.












