O mais recente projeto do escritório Local Local é a renovação deste apartamento que ocupa um andar inteiro num edifício vitoriano em Paddington.
Projeto: Local Local / Fotografias: Lorenzo Zandri
O estúdio de arquitetura Local Local concluiu recentemente a reabilitação de um apartamento que ocupa todo um piso de uma casa vitoriana classificada em Paddington, no centro de Londres. O projeto parte de um problema recorrente no vasto património residencial histórico da cidade: como devolver identidade e caráter a interiores de época quando quase todos os elementos originais desapareceram ao longo de sucessivas remodelações.



Com cerca de 95 metros quadrados, o apartamento encontrava-se profundamente descaracterizado. Intervenções anteriores tinham eliminado praticamente todas as superfícies e detalhes originais, restando apenas uma lareira em ferro fundido e as janelas de madeira originais. O objetivo do projeto passava por transformar o espaço num luminoso apartamento familiar com dois quartos, reorganizando completamente a planta para melhorar a entrada de luz natural, a fluidez entre divisões e as áreas de convívio. As alterações exigiram também um levantamento estrutural cuidadoso, já que a nova configuração implicou demolições e reforços pontuais na estrutura existente.



Em vez de optar por uma reconstituição literal de elementos históricos — ou, pelo contrário, impor uma linguagem contemporânea em rutura com o edifício classificado — o Local Local procurou reconstruir o carácter do espaço através de uma interpretação informada da arquitetura doméstica vitoriana. O resultado é um interior claramente contemporâneo, mas enraizado no seu contexto arquitetónico.


Essa abordagem torna-se visível na forma como o projeto trabalha proporções, transições e detalhes materiais. Uma nova e ampla abertura liga agora a cozinha à sala de estar, marcada por uma arquitrave de madeira com detalhe geométrico inspirado na Art Déco. A intervenção reforça a generosa altura dos tetos vitorianos e amplia a perceção de espaço dentro da área limitada do apartamento. Embora inspirados na tradição da época, os arquitetos optaram por gestos decorativos mais depurados e lineares, permitindo que a arquitetura dialogue com modos de vida contemporâneos.

O espaço social reorganizado privilegia a vista para o jardim posterior, prolongando as linhas de visão e reforçando a relação visual com a vegetação exterior. As janelas de madeira originais, entretanto restauradas, enquadram cuidadosamente esta ligação entre interior e exterior. Ao longo do apartamento, novas portas com cantos arredondados suavizam as transições entre divisões e criam uma sensação de continuidade espacial, contrariando a compartimentação típica das casas vitorianas.


Para responder melhor às necessidades de uma família, a planta foi também ajustada: uma antiga casa de banho foi convertida num segundo quarto, enquanto um quarto interior sem janela passou a funcionar como casa de banho e closet da suite principal.
A estratégia material partiu de um invólucro branco e monocromático que amplifica a luz natural e ajuda a expandir visualmente as dimensões relativamente compactas do apartamento. Sobre esta base neutra surgem intervenções subtis de cor, textura e detalhe arquitetónico. Estores de rolo amarelo-vivo animam a sala e os quartos, enquanto o interior dos armários da cozinha surge pintado em azul-cerúleo — um gesto inesperado que apenas se revela quando as portas são abertas.

A lareira original em ferro fundido foi cuidadosamente restaurada e combinada com uma nova cornija de madeira de desenho geométrico e uma base em mármore Green Tinos, cujos veios claros fazem a transição entre o ferro escuro de época e a marcenaria branca contemporânea.


No pavimento, largas tábuas de abeto-de-Douglas escandinavo maciço criam uma base serena e minimalista que contrasta com os elementos arquitetónicos mais expressivos. No closet, essa linguagem material intensifica-se: um espaço íntimo revestido em madeira escurecida surge como um contraponto contemporâneo no centro da planta luminosa.
As escolhas materiais introduzem ainda uma camada mais pessoal no projeto. A utilização de mármores Tinos e Dionysos faz referência a uma herança grega partilhada entre cliente e estúdio, acrescentando uma nota subtilmente mediterrânica ao interior e ancorando simbolicamente a casa londrina como um verdadeiro refúgio.


Segundo Sofia Xanthakou, diretora do estúdio, a intervenção procurou equilibrar memória e contemporaneidade. “Transformámos o apartamento numa pequena casa familiar, melhorando a sua fluidez e as condições de iluminação ao repensar completamente a organização da planta. A intenção era criar uma casa que respeitasse o contexto histórico do século XIX, mas que funcionasse plenamente para a vida contemporânea.”
A arquiteta explica que o contraste entre exterior e interior foi um dos pontos de partida do projeto. “O edifício é uma típica moradia vitoriana em banda, com fachada em tijolo, janelas salientes e detalhe ornamental, mas o interior do apartamento estava completamente desalinhado com esse carácter exterior, tendo sido quase totalmente despojado das suas superfícies e materiais originais. O desafio era perceber como poderíamos restituir esse sentido de lugar.”


Em vez de reproduzir detalhes históricos, a equipa optou por uma abordagem interpretativa. “Em vez de recriar detalhes de época, todas as nossas intervenções são referências diretas ou indiretas à arquitetura doméstica vitoriana. Ao integrar os poucos elementos originais restaurados com novos elementos cuidadosamente selecionados, o apartamento transformou-se num interior intemporal, mas inequivocamente contemporâneo, que se sente naturalmente integrado no contexto do edifício classificado.”
Concluindo, este projeto sugere uma estratégia para lidar com muitos dos interiores históricos descaracterizados de Londres, mas não só, que passa por reconstruir o carácter arquitetónico não através da réplica literal, mas por meio de uma reinterpretação sensível daquilo que já se perdeu.

