Por a 5 Março 2026

Com a cidade aos pés e o rio no horizonte, o apartamento de Sérgio Prieto na zona do Castelo é um manifesto da sua identidade criativa banhada pela generosa luz da capital.

Projeto: DOVAIN Studio / Fotografias: Daniel Schäfer

No coração de um dos bairros mais emblemáticos de Lisboa, junto ao Castelo de São Jorge, o DOVAIN Studio assina a reabilitação integral deste apartamento que é, acima de tudo, um manifesto pessoal. Localizado em frente ao Largo do Correio-Mor, sombreado por jacarandás e com a cidade estendida aos seus pés, o projeto reflete uma relação íntima entre arquitetura, paisagem e identidade criativa. 

Pensada como residência privada de Sergio Prieto, fundador da DOVAIN Studio, em parceria com Tiago de Lima, o apartamento foi concebido para refletir fielmente o universo estético do designer. Inserido num edifício pombalino de 1937, com cinco pisos e uma orientação privilegiada, o apartamento beneficia de luz natural ao longo de todo o dia e apesar dos seus contidos 77 m², estabelece uma ligação excecional com o exterior. Prova disso são as três janelas da sala que se abrem sobre o rio e a cidade, uma presença constante que se estende visualmente a todas as divisões, criando a sensação de se viver permanentemente ao ar livre.

Posto isto, não será propriamente de estranhar que a vista tenha assumido um papel central, tornando-se o ponto de partida para todas as decisões conceptuais. As cores observadas ao longo do dia — do azul do Tejo aos tons quentes do pôr do sol — inspiraram a paleta cromática interior, visível nas cortinas evocativas da Ponte 25 de Abril, nos apontamentos vibrantes que percorrem a casa e nos delicados detalhes em folha de ouro, reminiscência da luz refletida no rio.

A casa é habitada por peças com forte valor emocional e narrativo, das quais se destacam criações da DOVAIN Studio, obras pintadas pelo próprio Sergio Prieto, peças de artistas que o designer admira — como a cadeira amarela da TOSCO, o tapete de The Blue Boy ou as cerâmicas de Ana Rod — e achados da Feira da Ladra. A cozinha foi a única peça desenhada à medida, resolvida com mestria face às irregularidades das paredes e integrando de forma subtil o acesso à antiga casa de banho escavada numa rocha.

Mas este apartamento nem sempre foi assim, Tiago de Lima e Sergio Prieto contam que em tempos havia sido profundamente descaracterizado por uma remodelação nos anos 70, com tetos rebaixados e portas baixas. Em resposta, a intervenção atual procurou recuperar a linguagem original do edifício, reintroduzindo portas altas, boiseries e pavimentos em madeira em espinha, num diálogo equilibrado com uma decoração contemporânea, jovem e irreverente. A estrutura base foi respeitada, com exceção da criação de uma suite, que permite uma experiência singular: tomar banho com vista sobre Lisboa.