Por a 13 Janeiro 2026

Em Brasília, este apartamento de 254 m² transforma uma antiga planta compartimentada num espaço fluido e luminoso, onde referências do modernismo brasileiro e uma forte dimensão afectiva constroem o cenário ideal para a vida em família.

Projeto: CODA Arquitetura / Fotografias: Joana França

Pensado como a casa definitiva de uma família recém-chegada a Brasília, este apartamento de 254 m² nasce de um desejo claro: transformar uma planta compartimentada num espaço amplo, fluido e profundamente ligado ao convívio diário. O ponto de partida do projeto foi a recuperação da varanda original, anteriormente desconfigurada, agora ampliada e totalmente integrada à área social, funcionando como uma extensão natural da sala e da cozinha — o verdadeiro coração da casa.

Habitado por um casal que valoriza a funcionalidade do dia a dia, o acto de cozinhar em família e a recepção de amigos, o projeto responde a um briefing centrado na criação de um ambiente social generoso, luminoso, ventilado e multifuncional. A intervenção, embora integral, não implicou alterações estruturais, exigindo, antes, um trabalho minucioso de reorganização espacial.

A área social articula sala de estar, varanda e cozinha num único espaço contínuo. Aqui, a grande estante desenhada à medida assume um papel protagonista. Inspirada nos elementos pré-moldados da fachada do edifício — localizado numa zona icónica de Brasília —, a estante combina módulos de betão, prateleiras de vidro e um sistema de encaixe com cunhas de madeira. Este detalhe construtivo remete directamente para o célebre cavalete de vidro de Lina Bo Bardi, criado para o MASP, uma referência assumida que se prolonga também na escolha dos materiais do pavimento.

O piso em pastilha cerâmica verde (2,5 x 2,5 cm) percorre toda a área social e actua como elemento unificador do espaço, reforçando a identidade do projecto. A cor verde, escolhida em conjunto com os proprietários, surge igualmente na marcenaria da cozinha, criando uma forte unidade visual e uma atmosfera marcada por memória afectiva. A cozinha desenvolve-se a partir de uma bancada linear em Corian, com armários da Kitchens, e integra uma grande mesa de jantar, reforçando a ideia de partilha e centralidade deste espaço na vida familiar. Um armário alto em “L”, também em verde, prolonga-se até à sala e desenha de forma subtil a entrada do lavabo.

O diálogo entre materiais é constante ao longo do apartamento. O betão aparente surge em estruturas e elementos fixos, contrastando com a madeira e o vidro numa linguagem que cruza referências do modernismo brasileiro, reinterpretadas de forma contemporânea e acolhedora. Nos quartos, o pavimento em madeira de demolição reforça essa dimensão sensorial e sustentável, propondo um novo uso para materiais reaproveitados. O quarto das crianças destaca-se pela solução lúdica de um beliche que tira partido do pé-direito, libertando área de circulação e espaço para brincar.

A reorganização da planta permitiu ainda ampliar a suíte principal, criando um closet generoso, ao mesmo tempo que o corredor central foi redesenhado para dar lugar a um escritório mais amplo, pensado também como sala de projeção.

O projecto de iluminação seguiu a mesma lógica de flexibilidade e conforto. Em vez de uma iluminação fixa excessiva, optou-se por soluções soltas, como candeeiros de mesa e de pé, complementadas por arandelas de inspiração Bauhaus e pelo candeeiro suspenso Lina, ambos da Lumini, criando diferentes cenários ao longo do dia.

O resultado é uma casa que traduz a busca por um lar permanente em Brasília, conciliando referências modernistas da cidade com memórias trazidas de São Paulo. Um espaço pensado para a vida em família, onde materiais, cores e arquitectura constroem uma narrativa afectiva e contemporânea.