Por a 11 Abril 2023

O apartamento recentemente renovado, apresenta uma seleção cuidada de peças de arte e móveis exclusivos, além da vista sobre a cidade, e combina o talento criativo dos seus proprietários – dois designers de moda -, com intervenções arquitectónicas inteligentes que aproveitam ao máximo os espaços compactos.

Fotografias: Greg Cox/Bureaux / Texto: Robyn Alexander / Produção: Sven Alberding

Com a sua longa e rica história, edifícios revestidos de azulejos e a bela luz do entardecer, Lisboa atrai visitantes e admiradores há séculos – e, entre estes, foram muitos os que decidiram largar as malas de viagem e ficar mais um pouco. Entre os mais recentes apaixonados pela cidade estão os designers de moda e promotores imobiliários sul-africanos, Christiaan Gabriel du Toit e Malcolm Kluk, para quem os atrativos da capital foram, desde logo, tão cativantes. “Visitámos a cidade pela primeira vez em 2015 e ficámos apaixonados”, explica Malcolm. “Uma das nossas companheiras de viagem ficou em Lisboa na altura e aqui vive até hoje”, acrescenta, “e quando regressámos para visitá-la, no final do mesmo ano, decidimos começar a procurar uma casa.”

Com uma experiência considerável em renovação e desenvolvimento de propriedades na Cidade do Cabo, onde também está sediado o negócio de design de moda do casal, Malcolm e Christiaan tinham uma ideia muito clara dos bairros que queriam visitar, e onde estariam dispostos a comprar. “Estava convencido de que visitaríamos várias zonas da cidade e que isso eventualmente seria cansativo para o consultor imobiliário”, diz Malcolm. “Por fim, encontrámos este lugar, na internet, e quando fizemos a visita – a casa tem uma vista espetacular e ininterrupta sobre o rio Tejo – ficou clara a escolha, era irresistível.”

O apartamento, que fica num último andar e usufrui de alguma centralidade, está relativamente fora do radar da Lapa. O edifício onde se situa, foi construído pelo avô de um dos novos vizinhos de Christiaan e Malcolm e combina os encantos autênticos de uma habitação estreita, e uma fachada de azulejos subtilmente moderna. Para além disso, fica a uma curta distância de quase todos os lugares onde o casal gosta de passar o tempo, desde restaurantes a lojas, museus e jardins públicos.

Dispostos a pensar na escolha de um profissional para auxiliá-los na remodelação do apartamento, o casal conheceu o arquiteto João Gameiro, “que falava sobre um projeto e a sua remodelação num café, onde também estávamos, e foi assim que o conhecemos”, conta Malcolm. Ao consultarem o site do arquiteto, ambos gostaram do seu estilo dinâmico e contemporâneo. “Adorámos o facto de ter o seu próprio ponto de vista, do seu interesse tanto pela história como pelo presente ou futuro, adorámos a forma como combina as suas raízes portuguesas com a educação no Reino Unido e adorámos saber que o seu próprio apartamento (de que também gostamos muito) também fica nesta zona.”

Pese embora desejassem obter “uma sensação terrosa sem perder o luxo”, o briefing de Christiaan e Malcolm foi aberto e flexível. Malcolm salienta que o apartamento deveria ser observado como uma tela branca por forma a que João Gameiro pudesse interpretar o espaço como desejasse. Por sua vez, João pesquisou online a estética dos estilistas, e “apresentou as suas ideias iniciais a partir de uma fotografia do nosso feed do Instagram, de uma das nossas criações de moda”.

Diz João Gameiro, o arquiteto: “O conceito deste projeto visava ligar a Cidade do Cabo a Lisboa através da luz e da cor que derivam de ambos os lugares. A ideia da ‘casa prisma’ nasceu de uma narrativa que ressoa e refrata a luz natural em cores, com os recursos existentes sempre filtrados e melhorados quando apropriado.” O conceito subjacente de um prisma, com luz refratada em superfícies reflexivas introduzindo cores naturais nos espaços compactos aconteceu originalmente, a partir “dos nossos posts do belo pôr-do sol da Cidade do Cabo nas redes sociais”, diz Malcolm.

A destacar entre as intervenções da “casa prisma” está o teto metálico utilizado para iluminar e dar um toque mais expansivo à passagem central, que funciona adicionalmente como uma espécie de reflexo do sinuoso rio Tejo. João e o seu gabinete, o estúdio Gameiro, também sugeriram o uso de estuque terroso mas escultural nas casas de banho e na cozinha, para além de aperfeiçoarem pequenos detalhes, caso da forma dos puxadores embutidos nesta última, que imitam a porta original do apartamento. “Também existe um elemento colaborativo no design de interiores, sem dúvida”, diz Malcolm. “Por exemplo, o João desenhou a escada e nós adicionámos o pedestal de pedra.” As escadas fazem parte do lado prático da remodelação, durante a qual um quarto adicional com casa-de-banho privativa foi habilmente encaixada nas vigas da casa.

A confiança total ficou firmemente estabelecida entre os clientes e o seu arquiteto durante o principal trabalho estrutural da obra, que aconteceu entre alguns bloqueios e interrupções de viagens devido à pandemia do Covid-19.

“O estúdio Gameiro foi os nossos olhos e ouvidos no terreno, em Lisboa, durante esse período,” diz Malcolm. “O WhatsApp era a nossa única forma de supervisionar o que estava a acontecer, e o processo tornou-se num grande ato de fé.” Quando chegou a altura de finalizar o projeto, com a escolha do mobiliário e a seleção das obras de arte, Christiaan e Malcolm deram largas à sua veia criativa, e foram vários os móveis e peças de arte enviados a partir da África do Sul – “uma mistura de novo, reaproveitado e vintage”, refere Malcolm.

Houve até algumas peças que viajaram com o casal, caso dos lavatórios de aço inoxidável, que foram transportados na bagagem de mão numa das suas viagens! Outras peças, contudo, foram adquiridas em Lisboa ou online, através de fornecedores europeus.
“A arte é tão subjetiva e os nossos gostos mudam continuamente, mas cada casa tem uma sensação que exige um certo visual”, explica Malcolm sobre o processo de seleção de obras de arte para o apartamento. “Começámos com uma ideia mais minimalista, queríamos peças abstratas e esculturais; sentimos que precisávamos de trazer a arquitetura para os espaços e por isso também era desejada uma nota de cor – mas sem descontinuar o tema que o João tinha introduzido, e voltando sempre à justaposição do terroso e do glamour.”

Inevitavelmente, Malcolm e Christiaan passam agora uma parte considerável do seu tempo em Lisboa. “Estamos aqui sempre que podemos, usamos o apartamento como a nossa base, daqui seguimos viagem para outros lugares”, diz Malcolm. “Sentimos que levámos o conceito de ‘trabalhar em casa’ para um novo continente.” Questionados sobre o seu espaço de eleição no apartamento, o casal concorda que é “definitivamente a vista”. O interior foi projectado para colocar a vista no centro das atenções e mostrá-la, porque “tudo acontece na sala”, como diz Malcolm, e os móveis do espaço foram cuidadosamente dispostos para facilitar esse ponto de foco. E como a cozinha e as zonas de refeições são maioritariamente em open space, “trabalhamos a partir da mesa de refeições e preparamos as refeições na cozinha, sempre juntos, com as janelas bem abertas”.

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