Considerada “do contra”, sempre gostou de olhar o que a rodeia com outros olhos. Estudou direito, licenciou-se em gestão de marketing e trabalhou na Pepsi, mas a vida tinha outros planos para ela. Hoje é designer de Interiores e acreditamos que ainda vai dar muito que falar.

Fotografias: Cedidas pela Spacitude I Texto: Mafalda Galamas

Lara Lucas, 51 anos, é natural Luanda, Angola, mas foi em Portugal que desenhou o seu trilho. Depois de se ‘aventurar’ no Direito, de se licenciar em  Gestão de Marketing e de trabalhar mais de 15 anos numa das empresas mais reconhecidas mundialmente – a Pepsi – Lara deparou-se com o desafio de remodelação numa casa sua e isso viria a mudar-lhe a vida! Foi o impulso que precisava para tirar o Curso Técnico de Design de Interiores na Lisbon School of Design e criar a Spacitude. A URBANA quis saber como tudo começou e hoje devendamos-lhe tudo em discurso direto.

Estávamos em 2015 quando criou a Spacitude. Com um percurso distinto da área do Design de Interiores qual foi o objetivo com a criação da sua própria empresa?

A Democratização dos Design de Interiores com o aparecimento das grandes superfícies da área e as redes sociais bem como as crescentes aplicações de decoração para smartphones trouxeram o design para todos. Mas esta democratização do design está a moldar a cultura popular e a fazer florescer a cultura do design amador e a matar os designers e esta profissão a médio prazo. E foi com o propósito de ser uma alternativa a esta cultura que nasceu a Spacitude  que pretende oferecer bom design não apenas para quem tem um budget elevado mas sobretudo para quem tem a vontade e a curiosidade de sair do óbvio.

Acredito que um bom projeto, um diferenciado, exclusivo e personalizado não necessita de custar rios de dinheiro como o provam os projetos realizados pela Spacitude. Essa é a nossa proposta e o que nos tem diferenciado.

Esta tornou-se a sua principal atividade profissional?

Sim, a par com a segunda atividade que é a gestão do Instagram que escolhi como plataforma e “montra” principal de divulgação dos meus projetos. Criei o perfil no início de 2019 porque não sendo conhecida nem tendo uma loja aberta seria uma ferramenta de divulgação do meu portfólio e captação de clientes.

Foi com muita dedicação, estudo, trabalho duro e aplicação dos meus conhecimentos de marketing que rapidamente cresci, tendo quase 30.000 seguidores. Cerca de 90% dos meus clientes chegam até mim pelo Instagram, inclusive um boutique Hotel muito especial num edifício histórico de 1877, na cidade de Aveiro, que tenho o prazer de estar a trabalhar.

Como nasceu, efetivamente, a Spacitude?

Nasceu por acaso: tinha acabado de comprar um imóvel e esse momento coincidiu com a minha saída da  Pepsi, uma marca divertida, irreverente e jovem mas que não me fazia vibrar. Quando saí aproveitei o momento e dediquei-me  a 100% ao imóvel que tinha comprado e que culminou numa remodelação total e cinco meses de obra. Nunca mais fui a mesma!

Não sinto que seja uma profissão mas sim algo que faz parte de mim, que me faz respirar, que me faz viver e vibrar. Pode parecer exagerado mas nasceu uma nova pessoa que nunca se tinha sentido tão feliz, focada e determinada no seu trabalho. Se passo uns dias sem criar começo a ficar ansiosa e impaciente. Mas para tornar esta paixão cada dia mais avassaladora, e com uma criatividade que teimava em jorrar para todos os lados, numa profissão era necessário adquirir o conhecimento técnico. Foi então que decidi ir fazer o curso de Design de Interiores mas, em simultâneo, já fazia projetos para amigos e conhecidos. Desde o início o objectivo era muito claro: ter a minha  própria empresa e marca.

O que diferencia o seu trabalho?

Desde muito pequena que me dizem “és do contra” o que me chateava bastante na altura pois eu não me sentiaassim, os outros é que eram todos iguais. Hoje percebo que ser do contra nada mais é do que não pensar como todos tendem a pensar, é ver as questões de outra perspectiva, de outra ótica, é romper os paradigmas, é arranjar novas soluções e novas visões para problemas antigos. E é isso que tento fazer nos meus projetos e que os diferencia.

Tento ser experimental,  ver as questões de outro ângulo, desafiar-me a mim própria, sair da minha zona de conforto e quebrar algumas regras pelo caminho. Não tenho um estilo definido, há o querer sempre surpreender e inovar, o não cair na tentação de copiar porque é mais fácil e seguro mas arriscar e ser fiel ao modo como vejo o design de interiores e a vivência dos espaços e a história que eles contam.

O que a inspira?

Tanta coisa… O importante é ter o espirito aberto, ser curioso, observar muito porque criamos o que vemos e, por isso, necessitamos de nos expor a muitas e diferentes fontes de informação visuais.

Inspiro-me muito em outros designers e arquitetos mas vejo muitos trabalhos e projetos de outras áreas. Interessa-me muito a moda mas não a moda por si só e sim a cenografia da moda, ajuda a ver as questões de outra ótica porque a moda é uma área onde se rompem muitos os padrões.

E viajar! Viajar é uma tremenda fonte de inspiração. Quando viajo tento ir a lugares fora dos roteiros como lojas vintage, galerias de arte, feiras de antiguidades e ver e aprender sobre assuntos dos quais não sei nada porque assim vou educando os olhos e a mente a verem de outra perspectiva. Enfim…as ideias de Design podem estar em qualquer parte.

De que forma a pandemia veio influenciar o seu trabalho?

Nos primeiros meses, quando estivemos de quarentena nem senti. Estava com um projeto grande em mãos que me absorvia tanto tempo e energia que só vivia para aquilo. O meu trabalho já era feito muito online porque faço projetos para fora, nomeadamente Angola, Brasil e Moçambique em que as reuniões são feitas por zoom. Em Portugal também me acontecia o mesmo porque faço muitos projetos fora de Lisboa.

Que desafios gostava de concretizar que ainda não tenha tido oportunidade?

Todos! Muitos! Mas gosto muito de trabalhar espaços comerciais porque aí se tomam mais riscos, como não são lugares para viver mas lugares de passagem e em que se valoriza o tipo de experiencia que o cliente vai ter as possibilidades são muito maiores. Gostaria também de projetar iates, fascina-me as soluções encontradas para que se consiga acomodar tudo o que é necessário dentro dum espaço tão exíguo e com tantas limitações.

Na sua ótica, de que forma os portugueses olham para esta atividade profissional?

Ainda não estamos numa fase de maturidade do mercado como alguns países como os Estados Unidos, Canadá e Inglaterra. As redes sociais como o Instagram e o Pinterest vieram acelerar o processo e as pessoas estão agora a começar a entender o trabalho do Designer de Interiores mas ainda não é uma necessidade para elas, porque é algo que acreditam que conseguem fazer sozinhas. Porque sempre se fizeram obras, e fazem, sem se ter um projeto e isto é visto como algo normal. Depois, muitas vezes as coisas não correm bem e  há muitos erros, dores de cabeça, dinheiro mal gasto e mal gerido. E se por um lado essas plataformas vieram acelerar o processo vieram também dar a ilusão que todos somos capazes de fazer um projeto de interiores sem necessidade de recorrer a um profissional. Cabe-nos a nós Designers de Interiores ensinar e educar qual o nosso papel e importância.

O que a deixaria (mais) realizada?

Que as pessoas, principalmente em Portugal, arriscassem mais. Que estivessem dispostas a romper os padrões. Que se deixassem levar na viagem de um projeto de Design de interiores sem tantas resistências e crenças porque no final certamente iriam ficar agradavelmente surpreendidas. E que entendessem que um bom projeto, quer do ponto de vista funcional, quer do ponto de vista estético, nos faz sentir bem e felizes no dia-a-dia e a forma como isso impacta positivamente a nossa vida.

Qual a maior dificuldade de lançar uma marca própria, em concreto, numa área profissional nova?

A maior dificuldade é até percebermos as regras do jogo, um jogo com muitos players de diferentes áreas em que as fronteiras todas se tocam e não estão bem delineadas e em que jogam em todas as posições. Depois de entendermos isto e escolhermos o nosso posicionamento e definirmos bem o nosso público alvo penso que é mais fácil.