Por a 6 Abril 2026

O projeto de renovação, assinado pelo coletivo genovês CIRCOLO-A, batizado de Trip•ti•ca, nasce de um desejo deliberado de reinterpretar a planta: transformar a fragmentação espacial original numa sequência fluida capaz de captar e difundir a luz natural.

Fotografia: Anna Positano | Studio Campo Projeto: CIRCOLO-A | segundo a memória descritiva

A génese do conceito reside na morfologia da parte mais nobre do apartamento: uma frente voltada para o mar articulada num tríptico de divisões comunicantes, concebidas não como compartimentos estanques, mas como enquadramentos de uma única paisagem doméstica.

O projeto desmonta a divisão rígida entre as áreas sociais, criando uma enfiada contemporânea que se abre generosamente para o terraço. Este espaço exterior deixa de ser um mero anexo, tornando-se o quarto elemento da composição, o ponto de fuga natural para o qual convergem as linhas de perspetiva do interior.

A luz, modulada pela exposição privilegiada, atravessa as três divisões num contínuo visual, permitindo que o horizonte marítimo se torne parte integrante da decoração interior.

Esta abertura cenográfica total encontra o seu contraponto exato na organização da zona dos quartos. Com base numa clara dicotomia funcional, as áreas privadas foram estrategicamente posicionadas no lado mais elevado do terreno.

Esta escolha garante elevados níveis de privacidade e uma proteção acústica otimizada, criando um filtro protetor contra o ruído exterior.

Os três quartos apresentam volumes cuidadosamente calibrados para acomodar armários amplos; em particular, os quartos das crianças foram concebidos como ambientes flexíveis, dimensionados para acolher facilmente não só o descanso, mas também as dinâmicas de jogo e estudo.

No entanto, a distribuição das áreas reflete uma hierarquia contemporânea clara: a maior parte do espaço foi dedicada à zona social, elevando-a ao verdadeiro ágora da casa e ao fulcro absoluto da vida familiar quotidiana.

A narrativa do projeto apoia-se num dualismo material e cromático pensado para definir hierarquias espaciais sem recorrer a barreiras físicas.

No pavimento, a escolha do parquet em espinha confere uma elegância clássica e direcional: as réguas de madeira aquecem a atmosfera e, através da sua geometria, guiam o olhar ao longo da sequência de divisões, unificando o piso num único plano tátil.

Como contraponto à continuidade da madeira está o tratamento das superfícies horizontais superiores.

Na zona social, os tetos coloridos assumem o protagonismo: o uso da cor em posição elevada não é apenas decorativo, mas arquitetónico.

Define volumes, reduzindo percetivamente a altura para restituir uma sensação de intimidade doméstica, e marca o ritmo do “tríptico”, diferenciando funções enquanto mantém a comunicação visual aberta.

Trip•ti•ca é, portanto, um exercício de equilíbrio: entre o classicismo evocado pelo parquet em espinha e a modernidade dos blocos de cor no teto; entre a intimidade do interior e a abertura absoluta para a paisagem marítima.

Em última análise, Trip•ti•ca resolve-se como uma obra de mediação arquitetónica. Por um lado, o projeto abraça a extroversão natural da frente marítima, transformando a zona social num palco luminoso dedicado à sociabilidade e à partilha; por outro, recupera o valor da introspeção, criando um enclave silencioso e protegido no lado mais elevado.