O ateliê Conceitos de Arte assina o projeto de interiores deste apartamento, alojado num dos edifícios mais emblemáticos de Lisboa. A sua organização, em nada convencional, revelou-se tanto um desafio como uma solução surpreendente.
Projeto: Conceitos de Arte | Fotografias: Francisco Rivotti | Produção: Amparo Santa-Clara | Texto: Isabel Pilar de Figueiredo
A avenida estende-se, a seus pés, vibrante e anuncia uma cidade que não pára. Mas aqui dentro, neste apartamento caracterizado pelo seu longo corredor-galeria, que distribui os quartos e dá acesso às salas e à cozinha, há silêncio e serenidade. A base original foi mantida e o que inicialmente poderia ter sido considerado um condicionamento acabou por se transformar no principal motor criativo do projeto.





“Longe de uma organização convencional, o apartamento de três suítes desenvolve-se de forma orgânica e surpreendente, respeitando a arquitetura original, valorizando cada detalhe existente”, conta-nos Manuel Arez, sócio-fundador do Conceitos de Arte.





O mobiliário, na sua maioria de design italiano, dialoga com peças de antiquário selecionadas com um critério muito próprio. É neste contraste, que equilibra o contemporâneo e o clássico, que assenta a identidade do espaço. A paleta cromática, dominada por tons neutros e suaves, dá destaque à arquitetura e protagonismo às obras de arte, presentes um pouco por toda a casa.



A entrada assume um papel central na narrativa do projeto e foge à ideia tradicional de hall. Esta galeria, assim foi nomeada, é marcada por uma estante imponente, com cerca de 12 metros de comprimento, onde se exibem várias peças, além de luminárias e livros adquiridos ao longo do tempo, organizados como numa curadoria pessoal. “Longe de estar concluída, esta estante é um elemento em constante evolução, refletindo memórias, histórias e vivências”. Neste espaço, destaca-se ainda um bengaleiro austríaco em madeira, acentuando a singularidade da composição.



A zona de estar, ao fundo, é dominada por um grande painel de azulejos — uma interpretação contemporânea do azulejo português. O ambiente divide-se em duas áreas distintas: uma mais social, organizada em torno da lareira e da televisão, e outra mais reservada e intimista, centrada numa mesa de antiquário em madeira com tampo em mármore, de estilo Império, complementada por um bar de apoio. Bancos estofados permitem uma utilização versátil do espaço, seja para refeições informais ou jogos de mesa.


Na zona de jantar, as mesas e cadeiras de design italiano estabelecem um diálogo interessante com uma mesa de apoio adquirida em antiquário. O centro de mesa “Surf”, de Joana Vasconcelos para a Bordallo Pinheiro, destaca-se como peça escultórica; nas paredes, as gárgulas irreverentes da Vista Alegre, réplicas das existentes na Torre do Tombo, acrescentam humor e identidade.



A cozinha, cuja entrada se faz pela zona de refeições ou pela única porta de vidro, no corredor, exibe uma linguagem elegante e depurada, dominada pelos armários em tom off-white e pelo mármore “Fiore di Pesco”. A janela, ampla, preserva o desenho e mecanismo originais, embora tenha sido recuperada.
No quarto principal, a cama e a secretária organizam o espaço, envolvidas pela textura subtil do papel de parede em fibras naturais aplicado na zona da cabeceira, criando uma atmosfera de conforto e tranquilidade. As almofadas introduzem pequenos apontamentos de cor, num ambiente dominado por tons neutros. Os candeeiros de design reforçam a atmosfera sofisticada.



No quarto da filha, o candeeiro de design em rede metálica, de linguagem contemporânea, é um elemento dominante, em diálogo com a suavidade dos candeeiros de parede e com a textura, presente no papel de parede em fibras naturais e nas almofadas em tweed, que evocam os clássicos blazers Chanel, em contraste com o romantismo da colcha.


No quarto do filho, as linhas são masculinas, mas suaves, com uma abordagem centrada nas texturas e nos pequenos detalhes. O papel de parede em fibras naturais envolve a zona da cama, complementado por almofadas e uma manta aos pés, com padrão geométrico, reforçando o conforto e o acolhimento pretendidos para este espaço. A casa de banho social surpreende pela ousadia. Revestida com papel de parede vinílico, rico em cor e caráter, cria uma atmosfera envolvente e inesperada, afirmando-se como um espaço marcante e irreverente dentro do conjunto da casa.

