A estrutura em betão aparente, exposta em pilares, vigas e laje, é a melhor guardiã da memória do edifício. A sua presença forte, quase bruta, acentua o caráter do apartamento de 98 m², com projeto do ateliê FJ55 Arquitetura.
Projeto: FJ55 Arquitetura | Fotografias: André Mortatti
Há casas que revelam a sua essência logo à primeira visita. Este apartamento de 98 metros quadrados, em Moema, São Paulo, foi um desses casos. O tempo estava inscrito nas superfícies. O desafio passou, como tal, por escutar essa história e traduzi-la para um modo de viver contemporâneo, sem apagar os vestígios do passado.


Assinado pelos arquitetos Felipe e Jordan Perez, do ateliê FJ55 Arquitetura, o projeto parte da vontade expressa dos proprietários: libertar o espaço, permitir que a casa flua, visual e funcionalmente, acompanhando os diferentes momentos do dia. Por trabalharem a partir de casa, o casal rejeitou a ideia de compartimentos estanques e optou por uma organização aberta, flexível e dinâmica.


A antiga compartimentação — que separava de forma rígida as áreas social, privada e de serviço — deu lugar a um grande espaço contínuo e apenas o quarto principal e o lavabo mantêm paredes. Aqui, a marcenaria e o mobiliário assumem o papel de arquitetos silenciosos, definindo usos e percursos sem impor barreiras.


O cenário constrói-se a partir de três elementos essenciais: o betão aparente, o branco das paredes, que amplifica a luz natural vinda das amplas janelas, e o soalho de madeira, contínuo, que introduz calor e equilíbrio. É nesta tensão entre o bruto e o acolhedor que a casa encontra a sua identidade. Logo à entrada, uma peça de marcenaria em freijó desenha-se em L e funciona como manifesto do projeto. Por um lado, organiza o espaço de trabalho doméstico; pelo outro, acolhe um gira-discos e colunas de som construídas pelo próprio morador. Livros, objetos e memórias ocupam as prateleiras superiores, para um retrato íntimo, em constante mutação.
Mais adiante, a sala de estar é um espaço de encontros e camadas. O sofá Strips, de Cini Boeri, encontrado num antiquário, dialoga com a mesa de centro herdada e com um cartaz trazido de Nova Iorque. Peças vintage, recolhidas ao longo do tempo — como a icónica poltrona Mole ou os cadeirões Kiko, de Sérgio Rodrigues — distribuem-se de forma descontraída, sem hierarquias rígidas. No hall, uma obra de Jean-Michel Basquiat estabelece o tom desde o primeiro olhar.
A exposição das vigas, ao serem removidas as paredes, trouxe assimetrias inesperadas. A solução surgiu sob a forma de prateleiras metálicas contínuas, que suavizam a leitura estrutural e acolhem plantas, introduzindo o verde em contraste com a materialidade dura do betão.


A cozinha prolonga a lógica de continuidade. Os armários em freijó reforçam a unidade visual e as bancadas em mármore acrescentam nobreza. No centro, a ilha de cantos arredondados é revestida a ladrilhos em terracota. Unida à cozinha, a zona de jantar é espaço de partilha. A mesa Litoral, de Jaqueline Terpins, é acompanhada por cadeiras Diva e iluminada pelo candeeiro suspenso Ufo, de Fernando Prado. A iluminação, desenhada a partir de calhas eletrificadas, percorre todo o apartamento, sublinhando a expressividade da laje de betão e permitindo uma leitura clara do espaço ao longo do dia e da noite.




No quarto, o tempo desacelera. A paleta neutra, o mobiliário em madeira e a ausência de excessos promovem o descanso. Na casa de banho da suíte, a paleta quente prolonga-se através de um jogo subtil de revestimentos cerâmicos. A terracota e o branco reforçam a sensação de continuidade e conforto. Mais do que uma simples renovação, este projeto é um exercício de escuta e equilíbrio. Um diálogo atento entre passado e presente.



