O Studio Kimchi transformou um apartamento anónimo num refúgio sensorial onde a filosofia oriental e o espírito da costa belga se fundem numa narrativa profundamente pessoal.
Projeto: Studio Kimchi / Fotografias: Rebecca de Cavel
O projeto Chinese Wonder Walls, do Studio Kimchi, exemplifica o poder transformador de um design de interiores pensado ao detalhe, convertendo um apartamento duplex – sem muita graça -, num santuário extraordinário onde a filosofia oriental se encontra harmoniosamente com o charme costeiro belga. Concluída em 2022 para Annick e Mark, já numa nova fase de vida após a saída dos filhos de casa, esta renovação demonstra como narrativas pessoais podem ser entrelaçadas no desenho do espaço para criar ambientes profundamente significativos.



O desafio era substancial: transformar um apartamento frio e desprovido de identidade, adquirido pelos clientes depois de deixarem a sua espaçosa moradia perto de Ghent. O duplex incluía três quartos e três casas de banho, beneficiando de excelente luz natural graças às amplas janelas, mas apresentava uma cozinha exígua, inadequada para verdadeiros entusiastas da culinária, e uma compartimentação rígida que se revelava mais limitadora do que acolhedora. Os clientes procuravam uma casa para o resto da vida — um lugar onde pudessem envelhecer com elegância, mantendo a generosidade espacial a que estavam habituados.


A solução do Studio Kimchi centrou-se na filosofia japonesa Wabi-Sabi, que celebra a imperfeição e encontra beleza nos materiais naturais e nas formas orgânicas. Esta abordagem assenta também em fundamentos científicos: diversos estudos demonstram que os materiais naturais têm um impacto direto e positivo no bem-estar físico e mental — um princípio que muitos arquitetos contemporâneos parecem ter esquecido em favor de ambientes estéreis e impessoais.








A narrativa do projeto foi profundamente inspirada pelas extensas viagens dos clientes e pela sua coleção cuidadosamente selecionada de mobiliário e arte chinesa. Em vez de impor uma estética externa, o estúdio permitiu que estes objetos pessoais orientassem a história espacial, criando um ambiente que reflete verdadeiramente as experiências e paixões dos seus habitantes.



A paleta de materiais conta esta história através de elementos criteriosamente escolhidos que estabelecem pontes entre interior e exterior. O pavimento em parquet escuro, fortemente texturado, evoca madeira à deriva moldada pelas tempestades da costa belga, criando desde logo uma ligação ao contexto marítimo do apartamento, ao mesmo tempo que introduz riqueza visual e tátil. As paredes e o teto receberam um sofisticado acabamento em cal, em tom areia, com uma textura subtil que remete para as praias próximas, criando um fundo quente e orgânico que se transforma ao longo do dia com a variação da luz natural.






Elementos em preto, estrategicamente distribuídos pelo espaço, funcionam como âncoras visuais e dialogam com o precioso armário antigo chinês dos clientes, que assume o papel de ponto focal dramático da sala de estar. A marcenaria feita à medida evidencia a atenção ao detalhe do estúdio, com ripas sobrepostas inspiradas na madeira costeira desgastada e portas recuadas que criam um ritmo subtil, conduzindo o olhar de forma natural através dos diferentes ambientes.



A transformação da cozinha respondeu diretamente à paixão culinária dos proprietários, ampliando o espaço originalmente exíguo para criar um verdadeiro coração da casa, onde encontros familiares podem decorrer com conforto. Já a casa de banho principal recebeu um ousado apontamento em vermelho, numa homenagem às tradições artísticas chinesas, introduzindo um contraste marcante na paleta predominantemente neutra.
