Projeto assinado pela designer de interiores Katrina Boschenko, esta casa histórica em Lisboa ganhou uma nova vida antes mesmo da chegada dos proprietários. Pensado à distância, o projeto alia artesanato, sensibilidade contemporânea e respeito pela traça original.
Projeto: Katrina Boschenko | Fotografias: Luis Nobre Guedes e Francisco Rivotti | Texto: Isabel Pilar de Figueiredo
No coração do Bairro Alto, nasce o projeto residencial Lisbon Bespoke, um apartamento duplex com cerca de 180 m² de área interior e 90 m² de espaços exteriores, concluído em 2025. Assinado por Katrina Boschenko, responsável pela conceção estética integral, o projeto parte de uma base previamente remodelada, sobre a qual se construiu uma narrativa sensorial marcada por materiais nobres, arte e uma forte ligação ao contexto lisboeta.


A casa revela-se hoje como um exercício de sofisticação orgânica. Destacam-se elementos como portas e guardas em ferro preto, ferragens em cobre, escadas de entrada em mármore rosa de desenho curvo, que evocam referências Art Déco, pavimentos em pedra natural e apontamentos exteriores em azulejo português. O conjunto material cria uma base rica e texturada sobre a qual assenta o conceito decorativo.



Habitado por um casal que divide a vida entre Nova Iorque e Lisboa, com filhos adultos e um cão, o apartamento foi pensado para uma vivência confortável e social, preparada para receber família e amigos. A forte ligação emocional dos proprietários à arte, em particular à aguarela, tornou-se eixo conceptual do projeto. A cliente, ela própria artista, inspirou a integração de um mural na zona de jantar, desenvolvido a partir de referências da marca Eskayel, de Brooklyn, numa subtil ponte afetiva entre as duas cidades.


O conceito estético, enquadrado no universo Organic Modern, cruza neutralidade e expressão artística. A paleta desenvolve-se em tons pastéis suaves, inspirados nos pores-do-sol de Lisboa, pontuados por discretos apontamentos de azul. A distribuição cromática foi cuidadosamente equilibrada numa proporção de 70% de neutros e 30% de cor, garantindo serenidade visual sem perder profundidade.


A valorização do artesanato e da criação artística contemporânea materializa-se em várias peças comissionadas. A artista ceramista Maud Tephany desenvolveu duas instalações exclusivas: um conjunto escultórico de porcelanas orgânicas pintadas para a sala de estar e uma série de composições em azulejo vidrado para a zona de jantar. A estas soma-se uma peça têxtil da Fantasque, reforçando o diálogo com a produção artesanal.




Os materiais privilegiam textura e autenticidade: tecidos ricos, pedra natural nos pavimentos e paredes integralmente pintadas em gamas de branco e bege para amplificar a luz. Na sala, um trabalho de molduragem no teto acrescenta profundidade arquitetónica e enquadra a iluminação, evitando o efeito de suspensão visual dos pontos de luz.

O mobiliário combina peças maioritariamente adquiridas, de marcas como Ferm Living, Form & Refine, Westwing e Area Store, com elementos feitos por medida, como a cabeceira do quarto principal, onde se cumpre o briefing de um minimalismo com ligeira inspiração asiática.


A iluminação foi desenhada para oferecer camadas de experiência: luz funcional nos tetos e uma atmosfera mais intimista criada por candeeiros de pé. Como contraponto ao registo orgânico dominante, um aplique de carácter industrial do duo dinamarquês Kroyer-Saetter-Lassen introduz tensão estética e afirma-se como peça-statement.

Sem constrangimentos técnicos relevantes e com total confiança criativa por parte dos clientes, o resultado traduz fielmente a filosofia da designer: criar interiores serenos, inspiradores e profundamente humanos, onde arte, matéria e emoção coexistem — e onde os habitantes se sentem, verdadeiramente, em casa.

