Por a 11 Março 2026

A contagem decrescente começou: de 21 a 26 de abril, o Salone del Mobile.Milano regressa a Milão — saiba o que esperar da edição que promete redefinir o futuro do setor.

A contagem decrescente para a 64.ª edição do Salone del Mobile.Milano já começou — e tudo indica que 2026 será um momento de viragem para aquela que continua a ser a principal plataforma internacional do design e do mobiliário. Entre 21 e 26 de abril, na Rho Fiera Milano, o evento regressa com mais de 1.900 expositores provenientes de 32 países e cerca de 169.000 metros quadrados de área expositiva totalmente esgotados, números que confirmam não apenas a dimensão global do Salone, mas também o seu papel cada vez mais estratégico para o setor.

O evento afirma-se hoje como uma verdadeira infraestrutura cultural e económica do design contemporâneo e no sentido de reforçar essa ambição, a edição de 2026 vai contar com um programa mais integrado, acessível e transversal, capaz de ligar indústria, investigação, curadoria e experiência cultural. O regresso das bienais EuroCucina— acompanhada por FTK – Technology For the Kitchen — e da International Bathroom Exhibition volta a colocar em destaque dois dos setores mais dinâmicos do design doméstico, reunindo centenas de marcas internacionais. A completar o panorama está o SaloneSatellite, que trará a Milão 700 jovens designers com menos de 35 anos e 23 escolas e universidades internacionais, reafirmando o compromisso do evento com as novas gerações criativas.

Mas é sobretudo no plano conceptual que o Salone procura redefinir o seu futuro. Um dos projetos estruturantes é o Salone Contract, cuja estreia oficial está prevista para 2027 e cujo masterplan foi confiado aos arquitetos Rem Koolhaas e David Gianotten, do estúdio OMA. Pensado como uma plataforma dedicada aos grandes projetos de hospitalidade, retalho, náutica e imobiliário, o novo formato pretende reforçar as ligações entre indústria, arquitetura e design de interiores, promovendo soluções integradas e novas oportunidades de networking B2B. Em 2026, este novo eixo começa já a ganhar forma com percursos temáticos e conteúdos dedicados dentro da própria feira.

Entre as novidades desta edição destaca-se também o lançamento do Salone Raritas, uma nova plataforma expositiva dedicada à singularidade, à experimentação e ao alto artesanato. Com curadoria de Annalisa Rosso e design expositivo do estúdio Formafantasma, o projeto reunirá objetos únicos, peças icónicas e produções especiais que procuram estabelecer uma ponte entre a dimensão mais experimental do design e o mercado internacional.

Outro dos momentos mais imersivos do percurso expositivo será A Luxury Way, nos pavilhões 13 a 15, onde será apresentada Aurea, an Architectural Fiction, uma instalação concebida pelo estúdio parisiense Maison Numéro 20. Pensado como um hotel imaginário, o projeto transforma o design de interiores numa narrativa espacial que explora as dimensões emocionais, sensoriais e cénicas do habitar contemporâneo.

A edição de 2026 introduz ainda uma nova abordagem à experiência do visitante. Um sistema de orientação mais intuitivo e uma organização mais clara dos percursos pretendem tornar a complexidade da feira mais legível, estimulando simultaneamente a descoberta e o encontro entre profissionais. Em paralelo, a campanha A Matter of Salone coloca a matéria no centro da narrativa do design, sublinhando a passagem do gesto criativo à forma e ao significado.

Num momento em que o setor enfrenta profundas transformações, a sustentabilidade assume igualmente um papel central. O Salone pretende evidenciar a transição para um design cada vez mais circular e sistémico, em que materiais, processos e cadeias de produção são pensados como parte integrante do projeto. Nesse sentido, o evento renovou também a certificação ISO 20121 para o triénio 2026-2028, reforçando o compromisso com práticas mensuráveis de impacto ambiental e social.

Para Maria Porro, presidente do Salone, esta evolução reflete uma visão mais ampla do papel do design no mundo contemporâneo. Num contexto geopolítico e económico marcado pela instabilidade, o evento afirma-se como uma plataforma global capaz de ligar mercados, estimular pensamento crítico e projetar novas direções para a indústria. O Salone assume-se como um ecossistema em permanente transformação, que articula cultura, indústria e inovação e que, segundo Porro, tem na dimensão cultural o seu verdadeiro motor: um programa que inclui talks, instalações e formatos expositivos capazes de transformar o design num campo de pensamento, narrativa e investigação.

No centro desta visão estão também as novas gerações. Através do SaloneSatellite, o evento continua a apostar nos designers emergentes como um dos laboratórios mais vibrantes do futuro do setor. Depois de uma missão cultural no Japão em 2025, o programa prepara-se para levar jovens criadores a outras capitais do design emergente nos próximos anos.

No fundo, o que a edição de 2026 parece confirmar é que o Salone deixou há muito de ser apenas a maior feira de mobiliário do mundo. Hoje é um sistema global de ideias, relações e oportunidades — e continua a ser em Milão que muitas das conversas mais relevantes sobre o futuro do design começam.