Por a 12 Março 2026

Em São Paulo, este apartamento de 240 m² traduz uma leitura contemporânea da estética setecentista, equilibrando integração espacial, conforto e curadoria de design e arte brasileira. Assinado pelo arquiteto Felipe Carolo — que também é um dos moradores —, o projeto contou com produção de Manuela Figueiredo e fotografia de Fran Parente.

Projeto: Felipe Carolo / Produção: Manuela Figueiredo / Fotografias: Fran Parente

O apartamento, situado no bairro Jardim América, foi totalmente remodelado para acolher o dia a dia do arquiteto, do seu marido e dos três cães do casal. A planta original, típica de edifícios da década de 1970, foi redesenhada para responder a novas dinâmicas de habitar.

O imóvel possuía originalmente quatro quartos; dois deles foram unidos para criar uma ampla suíte master com walk-in closet, enquanto outro deu lugar a um espaço híbrido de home theater integrado ao escritório. Na área social, a antiga divisão entre living, sala de almoço e cozinha foi eliminada, resultando num único ambiente generoso e fluido, pensado para cozinhar, receber e conviver de forma natural.

A integração da cozinha com a área social foi, aliás, uma das principais premissas do projeto. Pela primeira vez, os moradores desejavam viver num apartamento em que cozinhar pudesse acontecer em diálogo direto com o estar e o jantar. Uma grande ilha em quartzito palomino — pedra natural de presença marcante — tornou-se o elemento central dessa composição, funcionando como ponto de encontro informal para conversas, refeições rápidas ou um vinho entre amigos.

Apesar da integração espacial, a casa preserva uma clara setorização entre os ambientes de receber e os de uso cotidiano. Um confortável home theater, separado da área social, atende ao ritual diário do casal: momentos de descanso no sofá, na companhia dos cães, em um ambiente mais íntimo e acolhedor.

A inspiração estética nasceu da própria arquitetura do edifício, marcado por uma fachada em vidro, caixilharias de alumínio e ausência de varandas — características que evocam uma leitura quase americana da arquitetura modernista tardia. A partir desse contexto, o arquiteto mergulhou no universo dos anos 1970 e do início dos anos 1980, explorando referências que vão do futurismo da corrida espacial às paletas terrosas e às madeiras escuras típicas da época.

Na área social, essa atmosfera traduz-se numa composição densa e sensorial: pisos em madeira de ipê substituem o antigo assoalho de sucupira, mantendo a paginação original; veludos, camurças, couro e fibras naturais reforçam a dimensão tátil do espaço; enquanto tons de castanho, mostarda e âmbar constroem uma paleta quente e sofisticada. Já na área íntima, o projeto assume outra linguagem: ambientes predominantemente brancos, mas sempre trabalhados com textura e relevo, criando uma sensação de refúgio silencioso e luminoso.

A remodelação também incluiu a completa atualização das infraestruturas elétricas e hidráulicas — uma necessidade comum em edifícios da década de 1970. Todo o sistema foi redesenhado para atender às exigências contemporâneas de uso. Em grande parte da área social, optou-se por evitar o uso de forro de gesso; assim, toda a infraestrutura elétrica foi embutida diretamente na laje, preservando um pé-direito mais generoso e um desenho espacial mais limpo.

Mesmo sem elementos originais preservados das remodelações anteriores, o projeto procurou manter o espírito do edifício. Um dos gestos mais simbólicos foi o uso de pastilhas nas casas de banho — uma referência direta à fachada revestida desse material, tão característica da arquitetura residencial brasileira dos anos 1970. Aqui, porém, elas aparecem reinterpretadas: pastilhas brancas do piso ao teto, criando um ambiente envolvente e contemporâneo.

O projeto revela uma casa construída por camadas de significado. Cada peça — do mobiliário ao acervo de arte — foi escolhida como parte de uma narrativa que mistura design brasileiro, referências internacionais e memórias pessoais. No centro dessa composição está a grande ilha em quartzito palomino da cozinha, cuja presença quase escultórica sintetiza o espírito do apartamento: um espaço onde arquitetura, design e vida cotidiana se encontram de forma natural e expressiva.