Por a 30 Março 2026

Num lote pequeno e irregular em Aveiro, esta casa transforma limitações em oportunidades, mostrando como menos área pode significar mais espaço, mais luz e uma forma de viver mais serena no coração da cidade.

Projeto: Paulo Martins Arquitectura e Design | Fotografias: Ivo Tavares Studio

No bairro da Beira-Mar, em Aveiro, onde as ruas se desenham de forma orgânica e os lotes parecem desafiar a lógica, nasce a Beira Mar II, uma casa pequena na escala, mas densa em intenção. Assinado pelo atelier Paulo Martins Arquitectura e Design, o projeto parte de um gesto claro: aceitar o lugar tal como é. Num terreno mínimo e irregular, não há tentativa de correção, mas sim um exercício de escuta e resposta, onde a precisão do desenho dialoga com a complexidade do contexto. A linguagem é contemporânea, mas sensível ao que a envolve — não replica a cidade, interpreta-a.

Ao nível da rua, a madeira estabelece proximidade e humaniza a presença do edifício, criando uma relação direta com o quotidiano. Nos pisos superiores, o cerâmico branco evoca, de forma subtil e depurada, a tradição local, numa leitura quase abstrata da memória azulejar de Aveiro. A casa organiza-se em dois níveis voltados a poente, perseguindo a luz como elemento estruturante. Um pátio vertical abre o interior ao céu e permite que a luminosidade percorra a casa, enquanto um gesto linear de luz atravessa o espaço, guiando o olhar e instaurando uma sensação de calma.

Os quartos, no piso térreo, oferecem recolhimento e silêncio. O espaço social eleva-se, libertando-se para o exterior através de um amplo plano envidraçado que dissolve fronteiras e transforma a casa num lugar de transparência e continuidade. No topo, o terraço prolonga a experiência: mais do que um espaço exterior, é um ponto de contemplação sobre a cidade, onde a presença da cúpula de São Gonçalinho e o reflexo das salinas ao entardecer reforçam a relação com a paisagem envolvente.

Com apenas 98 m² implantados num lote de 51 m², a Beira Mar II afirma-se como um exercício de precisão e clareza. No interior, os espaços são livres e adaptáveis, definidos por poucos materiais e uma atenção rigorosa ao detalhe. Aqui, a arquitetura revela-se naquilo que não é excessivo: na luz que desenha percursos, nas perspetivas inesperadas e na capacidade de oferecer uma forma de habitar mais serena. Como explica Paulo Martins, trata-se de um projeto que transforma limitações em oportunidade, criando um equilíbrio subtil entre integração urbana e afastamento sensorial, onde cada gesto é essencial e cada escolha contribui para uma experiência de vida mais consciente.