Por a 13 Março 2026

O projeto, íntimo, funcional e profundamente pessoal, traduz seis décadas de carreira. Pensado para o presente e desenhado com a liberdade de quem já não precisa de provar nada

Fotos: Paulo Lima; texto: Isabel Pilar de Figueiredo; Produção: Amparo Santa-Clara

Acho que estou pronta para o próximo desafio — talvez um podcast?” A frase surge com a leveza de quem olha para trás com orgulho e para a frente com curiosidade intacta. Aos 60 anos de carreira, celebrados no livro da Inchbald School of Design, onde se inclui um seu testemunho, com dois livros publicados, prémios de mérito cultural e empresarial, hotéis, restaurantes, casas icónicas, discotecas e até Macau no currículo, Graça Viterbo continua a falar de futuro. É talvez essa inquietação criativa permanente que melhor define a casa onde hoje vive, no Estoril, um espaço que é simultaneamente refúgio, manifesto e síntese de uma vida dedicada ao design de interiores.

Sempre achei que o ‘small is beautiful’, sobretudo se for bem feito, de forma original e na altura certa”, afirma. Pensada para dois, esta é uma casa onde tudo tem escala humana e intenção clara. Sem escadas, com o piso nivelado “adaptado à nossa idade”, e com uma piscina interior para “dar umas braçadas e manter-me em forma”, o espaço reflete uma nova forma de estar na vida: mais calma, sem pressas, com menos excessos. “Hoje vemos a vida de outra forma, com menos stress. Recebemos menos, simplificámos. A casa é onde nos sentimos bem.”

Do ponto de vista do projeto, o desafio não foi pequeno. “Na prática, foi um exercício de ideias muito concretas, o que pode ser mais difícil do que partir de um espaço novo ou abstrato.” Graça Viterbo partiu de si própria, revisitando e reposicionando os seus “best of”: móveis de estimação, objetos de uma vida, acessórios e estofos de eleição. Uma verdadeira curadoria pessoal, onde convivem peças que marcaram épocas, estilos e tendências — da gaiola artesanal à coleção de louças de Cantão, passando por bergères, mobiliário Biedermeier, um biombo de espelho icónico e mesas de apoio de pequena escala, numa inversão consciente do ‘oversize’.

A arte está omnipresente: a pintura preferida, a fotografia, o livro de Helmut Newton pousado numa base de Philippe Starck. A música também, sempre com Bob Dylan e muitos outros. E, como não podia deixar de ser, as memórias: fotografias que se multiplicam e contam histórias. Para deixar entrar o exterior sem filtros, escolheu estores de madeira, dispensando cortinas: “para que o verde entre de rompante, com a cor e com o sol”.

Formada em Lisboa e Londres nos anos 60, Graça Viterbo reconhece neste projeto um regresso às origens. “Senti-me a voltar ao espírito do loft”, explica. Quis criar um ambiente aberto, fluido, sem passagens marcadas, chegando mesmo a eliminar algumas portas. “Foi um exercício criativo que me deu imenso prazer. Diverti-me!

O diálogo entre arquitetura e interiores foi, nas suas palavras, sereno. “Aqui encaixaram como uma luva.” Talvez porque, desta vez, arquiteta, decoradora e cliente eram a mesma pessoa. Ainda assim, sublinha o respeito profundo que sempre teve pelos arquitetos com quem trabalhou ao longo da carreira, reconhecendo os desafios e as virtudes desse diálogo profissional.

A luz natural e a relação com o exterior desempenham um papel central. “Aconselho sempre a ir à obra para perceber a luz in loco, como se transforma ao longo do dia.” A iluminação artificial surge depois, cuidadosamente doseada, influenciando cores, texturas e materiais. “Pessoalmente, gosto de privilegiar luzes amarelas e baixas.”

Se todas as escolhas são emocionais, há uma que se destaca: “O meu biombo de espelho, que me acompanha há exactamente 57 anos, tantos quantos celebro de casada.” Um objecto que simboliza bem o que esta casa é: um “choix du choix”, onde nada é aleatório e tudo tem história.

Clássica-contemporânea, como a própria se define, Graça Viterbo reconhece-se em cada espaço da casa. Mais do que um ambiente específico, é o conjunto que fala do seu percurso — um legado que atravessa Portugal de norte a sul, passa por hotéis de charme e grandes unidades clássicas, restaurantes emblemáticos como o Café Nicola, lojas, escritórios, discotecas como o Banana’s ou o Frolic, e experiências internacionais marcadas pelo diálogo com o feng shui oriental.Sempre à frente do seu tempo — “meu e dos que hão de vir” —, fez da relação com clientes uma relação de amizade, aprendeu com artesãos e técnicos tantas vezes invisíveis, e continua activa, entre projectos no Estoril e no Algarve. A casa onde hoje vive não é um ponto de chegada, mas uma pausa consciente. Um lugar onde, como ela própria diz, os sonhos encontram a realidade, e o tropical encontra a serenidade.