No centro de São Paulo, um apartamento curvo e inundado de luz tornou-se o palco onde dois mineiros transformaram imperfeições em identidade e construíram a sua casa entre design e memórias.
Projeto: André Braz / Fotografias: Evelyn Müller
No centro de São Paulo, no Brasil, um edifício de 1953 desenha uma curva sobre as escadas que ligam à Avenida 9 de Julho. A fachada acompanha o movimento da esquina, com varandas arredondadas e uma trepadeira de jasmim-estrela que sobe até meio da construção, suavizando o betão aparente. É aqui, no Edifício Major Quedinho — cenário do filme Ainda Estou Aqui — que André Braz e Pablo Ladeira encontraram o lugar para construir casa.
O apartamento, com 160 m², ocupa uma posição privilegiada na curva do prédio e a orientação a norte garante sol ao longo de todo o dia: começa por iluminar o quarto, atravessa o escritório e termina na sala de jantar e na varanda, onde um capacete em forma de disco ball — criado por André para uma fantasia de Carnaval — espalha reflexos pela sala ao final da tarde.


André, arquitecto, e Pablo, estratega de marcas e comunicação, são ambos mineiros. Conheceram-se em São Paulo, depois de percursos paralelos em Belo Horizonte, e decidiram viver juntos durante a pandemia. A escolha da nova casa partiu de exigências muito claras: varanda para Margot, a border collie que já fazia parte da família; luz natural abundante; amplitude; e um segundo quarto que permitisse trabalhar a partir de casa e receber amigos.



Encontraram este apartamento fechado há quase dois anos. Havia infiltrações, bolor, tetos a descascar. Mas o soalho de taco em peroba-rosa, o pé-direito generoso e a planta ampla compensavam todas as imperfeições. Durante três meses resolveram problemas hidráulicos; ao longo de mais de um ano pintaram, divisão a divisão, ao ritmo do tempo e do orçamento. Não houve alterações estruturais — adaptaram-se ao layout herdado das transformações feitas nos anos 90, que uniram quartos e abriram a sala de jantar.



O dia da mudança revelou uma coincidência quase simbólica: os móveis de um completavam as lacunas do outro. A mesa de seis lugares de André encontrou lugar na sala; as mesas de quatro de Pablo distribuíram-se entre cozinha e varanda; a cama queen tornou-se sofá no escritório; a king ocupou o quarto amplo. O que parecia excessivo revelou-se essencial para receber.



Não há um estilo fechado. O apartamento constrói-se como uma colagem viva: peças de design convivem com achados do OLX, memórias de viagem, fantasias de Carnaval e livros de psicanálise. A narrativa é afetiva, não programática.
Entre os clássicos, surgem a cadeira Girafa de Lina Bo Bardi, a poltrona Paulistano e a poltrona 22 de Paulo Mendes da Rocha, a cadeira Panton de Verner Panton, o sofá Maralunga de Vico Magistretti e o banco Bertoia de Harry Bertoia. A primeira grande aquisição foi precisamente o Maralunga, encontrado de forma inesperada quando procuravam uma namoradeira de Sérgio Rodrigues. A camurça encaixava-se na paleta definida para a casa — foi amor imediato.


Ao lado destes ícones, peças de novos estúdios e designers brasileiros reforçam o carácter contemporâneo do conjunto: cadeiras da Forma Bruta, espelhos do Estúdio Geo, mesas laterais da Bravios Estúdio, pássaros da Lott + Tomaz, entre outros. A arte ocupa paredes e circulação, numa galeria afectiva que reúne amigos e criadores como Santo — autor dos desenhos na cabeceira do quarto, onde Pablo é representado como “Caos” e André como “Rei Sol” —, Bia Braz e vários outros nomes da cena artística local.
Na estante da sala, um bordado da fachada do edifício, oferecido por André a Pablo no primeiro aniversário da mudança, traduz em fio a arquitetura da esquina. No corredor, três fotografias da feira dominical, vistas do andar — também presentes de família — fixam a rotina que ajudou a decidir a escolha da casa. Todos os domingos, a rua transforma-se num mercado a céu aberto, onde abastecem a semana e reforçam a ideia de pertença ao bairro.


A maturidade do projecto revelou-se, sobretudo, na definição de uma paleta cromática consistente. Cada divisão tem a sua cor — incluindo os tetos — numa progressão que se adensa à medida que se avança pela casa. A sala, mais neutra, permite que mobiliário, plantas e obras respirem. O escritório escurece ligeiramente para favorecer o conforto visual; o quarto aprofunda o tom.


O corredor assume um verde militar que articula os ambientes. Na cozinha, o tecto em vermelho-escuro introduz calor e personalidade, equilibrando a luz natural e dialogando com armários claros e piso neutro. É o coração da casa e onde qualquer festa acaba inevitavelmente. A decisão de manter a cozinha fechada, com uma mesa redonda de quatro lugares, reforça essa atmosfera de refúgio.



Na varanda curva, o caquinho cerâmico substituiu o antigo pavimento excessivamente reflectivo, evocando as varandas de casas antigas e tornando o espaço mais habitável. Entre plantas — com destaque para a jabuticabeira que raramente chega a dar frutos antes dos pássaros —, preserva-se também uma espada-de-são-jorge deixada pela antiga proprietária.


Desenhar a própria casa foi um exercício de escuta e negociação. “Não é a minha casa, é a nossa”, sublinham. A vontade de transformação é constante — testar novas disposições, acolher novas peças —, mas a base mantém-se: iluminação indirecta, atmosfera acolhedora e funcionalidade real. À noite, a casa ganha uma segunda vida, mais suave, onde a luz directa é reservada apenas ao indispensável.
Cinco anos depois da mudança, sentiram que era tempo de registar o resultado. As fotografias de Evelyn Müller captam não apenas um apartamento no centro de São Paulo, mas a sedimentação de um processo partilhado. Imperfeito no início, paciente na construção, profundamente vivido. Uma casa que não procura impressionar — mas que, precisamente por isso, inspira.
