Por a 16 Janeiro 2026

Este projeto de reabilitação no centro histórico de Lisboa, devolve clareza, dignidade e luz a um edifício que sobreviveu ao terramoto de 1755. João Tiago Aguiar assina a arquitetura e Francisco Nogueira a reportagem fotográfica.

Projeto: João Tiago Aguiar / Fotografias: Francisco Nogueira / segundo memória descritiva

A intervenção no prédio devoluto da Rua dos Fanqueiros, Nº156, nasce de uma responsabilidade intrínseca: restituir a dignidade arquitectónica a um dos raros edifícios que sobreviveram ao terramoto de 1755. Mais do que reabilitar, tratou-se de escavar memória, revelando a autenticidade estrutural e espacial há muito obscurecida por camadas acumuladas ao longo de décadas.

Desde o início, o projeto adoptou uma metodologia de depuração. Cada elemento recuperado ou introduzido procurou respeitar a verdade do existente, permitindo que a arquitectura original recuperasse presença, proporção e expressão. Esta postura crítica orientou todas as decisões formais e materiais.

No rés-do-chão, as lojas foram libertadas de acréscimos que lhes retiravam profundidade e escala. A remoção dos meios-pisos devolveu aos arcos a sua leitura integral, restituindo a verticalidade e a transparência que caracterizam a tipologia comercial pombalina e reacendendo a relação franca entre interior e rua.

A introdução de um elevador totalmente transparente em vidro, discretamente colocado na bomba de escadas, permite preservar a nobreza da caixa de escadas, cuja geometria racional permanece visível e intacta. O elevador assume-se como presença silenciosa, quase imaterial, que respeita o protagonismo histórico do espaço.

A estrutura primitiva e os tectos trabalhados foram cuidadosamente recuperados. As janelas foram substituídas por novas caixilharias de madeira, assegurando coerência histórica e elevado desempenho térmico e acústico.

O pavimento, elemento unificador do projecto, apresenta um soalho largo e nobre, marcado por uma estereotomia em padrão de diamante subtilmente inspirada nas igrejas seculares de Lisboa. Este gesto confere cadência e intemporalidade, convocando memória de forma serena e depurada.

Paredes brancas e mármore Estremoz reforçam a luminosidade dos interiores, conferindo serenidade à experiência do habitar.

No hall, os azulejos artesanais especialmente desenvolvidos para o local pela artista Maria Ana Vasco Costa estabelecem um diálogo subtil entre arte e arquitectura, transformando a entrada numa antecâmara luminosa que anuncia o carácter do edifício.

As master suites dos apartamentos do lado esquerdo (pisos 2 a 5) integram volumes soltos que acolhem as instalações sanitárias, libertando as paredes perimetrais e permitindo uma leitura mais fluida e contemporânea da espacialidade. Estes volumes autónomos introduzem uma camada contemporânea que dialoga discretamente com a matriz histórica do edifício.

A ampliação permitiu criar 2 apartamentos duplex, aproveitando o desvão do telhado. Lanternins e trapeiras ritmados deixam entrar feixes de luz mutáveis, animando os interiores ao longo do dia numa coreografia subtil entre sombra e claridade.

Num dos duplexes, a zona social ganha duplo pé-direito e um mezanino desenhado à medida, ampliando verticalidade e reforçando a respiração do espaço.

Apesar do logradouro nascente ser exíguo, toda a estratégia de vãos procurou maximizar a luz natural, garantindo uma difusão equilibrada por todo o edifício.

Este projecto representa, acima de tudo, um gesto de respeito: respeitar o edifício, a sua história, a sua resistência e o seu silêncio acumulado. A reabilitação devolve-lhe clareza e autenticidade através de uma linguagem contemporânea que não se sobrepõe, mas antes dialoga com o passado de forma íntegra e consciente: uma arquitectura que reencontra a sua essência.
É nesta procura por verdade construtiva, por luz, por matéria e proporção que se reconhece a nossa prática: uma arquitectura que procura reencontrar a sua essência.