Na génese da intervenção de reabilitação deste apartamento de 90 m2, além de se contrariar as débeis condições de habitabilidade pré-existentes, procurou-se igualmente preserver o legado histórico desta tipologia construtiva, preservando os elementos considerados como relevantes das características da época.

Projeto: Bala Atelier / Área: 90 m² / Ano:  2020 /Fotografias:  Ivo Tavares Studio / Curadoria de Susanna Moreira / segundo a memória descritiva dos arquitetos, via Archdaily

Ao intervir numa cobertura, mais especificamente nas águas-furtadas de um edifício datado de 1906, em pleno século XXI, estabelece-se um diálogo entre os diferentes tempos e formas de habitar, mas também entre os respetivos métodos construtivos, sendo necessário fazê-los coexistir harmoniosamente.

Assim, na génese da intervenção de reabilitação deste apartamento de 90 m2, além de se contrariar as débeis condições de habitabilidade pré-existentes, procurou-se igualmente preserver o legado histórico desta tipologia construtiva, preservando os elementos considerados como relevantes das características da época.

São disso exemplo, as cantarias, a parede resistente em alvenaria de pedra irregular, os vigamentos e pilares em madeira de suporte à cobertura, que se revelam e tornam memória do sistema construtivo original. Define-se uma abordagem rigorosa, com especial foco no detalhe, elegendo-se a madeira de pinho como matéria primária, e valorizando-se a harmonia e compatibilização das restantes. A transformação espacial do fogo, inicialmente muito compartimentado e com áreas de pé-direito reduzido, surgiu de forma imediata e intuitiva, e passou por torná-lo num espaço amplo, tirando proveito da água furtada.

Libertando a área central estabelece-se uma nova organização funcional, com maior relação visual entre os diferentes espaços. Aumentou-se a sua volumetria, potenciou-se a profundidade do fogo e a relação dos eixos visuais nascente/poente e a iluminação e ventilação natural através dos vãos em trapeira. A nova configuração do espaço vem permitir uma vivência dinâmica e flexível da casa. Anula-se o espaço encerrado de cozinha e define-se uma bancada e sala de refeições no espaço central com maior pé-direito.

A relocalização da instalação sanitária para o interior do fogo permite libertar todos os vãos exteriores para o espaço amplo. Esta instalação sanitária passa a ser o único espaço interior da casa, no qual se introduz um túnel de luz com clarabóia. Este novo volume interior e central destaca-se da água furtada e é revestido a latão polido, refletindo os espaços que em torno dele se desenvolvem.

O quarto, de caráter informal, relaciona-se com os demais espaços da casa e, ora se abre, ou se encerra, através de um elemento cénico – uma cortina de veludo dourado e seda -, que corre no prolongamento da parede em latão.

O revestimento em papel de parede introduz uma rica matiz cromática, que se alastra para os revestimentos em azulejo na antiga chaminé, no interior da casa de banho e para o revestimento em pedra da bancada de cozinha. As peças de mobiliário, as luminárias, os tapetes e as plantas, foram cuidadosamente selecionadas, prolongando a narrativa relatada através da arquitetura.