A designer portuguesa que vê os seus projetos serem vendidos em minutos, tem no currículo algumas exposições consagradas e já recebeu distinções em Shangai. A entrevista em exclusivo para a Urbana dá a conhecer a mente por detrás da obra.

Fotografias de perfil : Marisa Cardoso / Esculturas fotografadas por Miguel Vigon Manso

Ana Faria, 37 anos, é licenciada em desenho industrial pela ESAD_CR em Portugal e tem suscitado cada vez mais atenção internacional figurando já entre uma das 150 designers mais promissoras do mundo, pela Salone Satellite durante a Milano Design Week e no Now! Le off da Paris Design Week.

É artista e empreendedora, nas suas criações a realidade é deformada com o objetivo de produzir sensações visuais a quem adquire as suas peças, oferecidas pela natureza, movimento da forma, função e estética. O resultado traduz-se sempre em edições limitadas, personalizadas, executadas por encomenda e criadas a pensar em mercados contemporâneos e colecionáveis.

Para quem (ainda) não a conhece, que tipo de peças a Ana desenvolve?

Desenvolvo conceitos que exploram a transformação de matérias em formas orgânicas. Nas peças que executo, a matéria é explorada ao limite da sua plasticidade para potencializar a criação da forma, função e a estética através da organicidade. A forma muitas vezes é sobreposta à função devido à sua experimentação.

O resultado pode ser objetivar tanto uma cadeira, como uma lâmpada, uma marca ou um espetáculo de vídeo mapping… Construímos uma linguagem com um vocabulário através das novas tecnologias, novos métodos produtivos, criando peças únicas que desobedecem a uma ordem intelectual.

Adoro trabalhar em tudo aquilo que é inatingível, experimental e orgânico. Esta minha paixão levou-me a procurar processos da alta tecnologia e alta precisão. A tecnologia avança porque existem pessoas a criar cientificamente para dar origem a novos materiais. É preciso saber o que fazer com eles. E para isso, existem pessoas como os designers, que dão uso a tudo isto. 

Teve um êxito particular com  coleção Mother Mine, a primeira peça desta coleção foi comprada em leilão, na Design Shanghai, em apenas 3 minutos. A segunda peça – Incômoda – foi adquirida pela Dupont e está atualmente em exposição permanente na Dupont Innovation Center em Shanghai. O que representam estas esculturas?

As peças da coleção Mother Mine & All of Us, são inspiradas na anatomia humana e representam a reflexão sobre a minha própria identidade, a partir da minha estrutura como mulher. Representam o lugar onde todos os seres humanos são gerados, formados e transformados.

A “inspiração” surgiu-me da ideia de usar um simples “graffite”, um hieróglifo, leve e em simultâneo arabesco, mas significante e indesmentível. Mother Mine deriva da vontade de valorização da mensagem a transmitir, prestigiando a raiz da sua temática profunda, o corpo feminino. Tudo isto, com uma dinâmica intelectual contemporânea, “timeless” e sustentável.

Em 2019 também foi galardoada com o prémio DESIGN SHANGHAI PICK AWARD NA ÁREA DOS “COLlECTABLE”. O que representou para si para distinção?

Foi uma enorme emoção porque foi absolutamente inesperado, sobretudo quando se está do outro lado do mundo, numa cultura absolutamente transformadora, como designer independente a competir com nomes muito grandes do mercado como: Zaha Hadid Design, How Art Museum, Gallery All, Galerie Dumonteil.

Esta distinção permitiu validar todos os meus sonhos, e continuar a acreditar que como sonhadora, nunca devo desistir. O sabor do prémio foi ainda maior porque não tinha concorrido e, por unanimidade, o júri decidiu atribuir-me o prémio. Foi fantástico! É um reconhecimento enorme de 10 anos de dedicação ao mundo da criação.

Outra forma de internacionalização do seu trabalho foi a criação do seu estúdio em Shangai. Como surgiu esta oportunidade?

Foi um convite por parte da Designer de Interiores Yanfei, em 2018. Ao início parecia algo impossível, mas mais cedo ou mais tarde teria de acontecer, devido às temporadas que eu passava na china. Foram surgindo convites para desenhar para a indústria chinesa, galerias e marcas, que justificavam ter uma equipa naquele mercado.

Além disso, em 2019 o governo chinês estava com imensos incentivos para apoiar a indústria criativa, o que permitiu ganhar um financiamento para produzir uma coleção na china, internacionalizando todo o meu conhecimento adquirido em Portugal.

Não obstante a metáfora de voar –  Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail Again. Fail better.” – Samuel Beckett.

Na China, a internalização do meu conhecimento, a capacidade de pensamento livre e a identidade feminina do intelecto orgânico, a criatividade, a comunicação, é absolutamente inspiradora para muitas mulheres.

Qual é a sua maior obra?

Difícil de escolher… 🙂 Mas diria que a primeira é sempre a primeira. Aquela que me fez desenvolver todo o conceito, tem o mesmo nome da coleção “Mother Mine”,  foi a minha obra final de curso. Vivi com ela durante três anos, o que me permitiu sentir, todos os dias, o que significa ter um objeto desta forma e com este caracter na nossa vida.

Esta obra foi o passaporte direto para Salone Sattelite – Exposição de jovens designer em Milão, viajar mundo até ser vendida num leilão na china, numa das maiores leiloeiras do governo chinês – Poly action. Foi a primeira peça do leilão a ser vendida por uma quantia de 25,000.00 K! Um marco na minha carreira que me permitiu criar o meu estúdio e continuar a desenhar a minha própria linguagem, cumprido o meu maior objetivo.

Tem artistas de referência?

Claro, Salvador Dali, Antoni Gaudí, Zaha Hadid, Matisse, Bruno Munari, Gaya, Caravaggio, Achile Castiglioni, Santiago Calatrava.

O que procura transmitir com a sua arte?

O reflexo da minha própria identidade. Criar objetos com caráter, “timeless”, que vivem, registam e recordam os segredos de todos nós enquanto humanos. Que evoquem sentimentos, angústias, tristezas, sorrisos e, acima de tudo, que as peças tenham a capacidade de fazer viver, dar vida, e realçar coisas do nosso imaginário profundo e íntimo. No fundo, pretendo interrogar através de formas surrealistas. 

A identidade para mim como criadora é algo muito importante, permite-nos evoluir e resistir a qualquer transformação do setor no mercado.

Como observa a comunidade artística portuguesa?

Somos uma comunidade que continua a lutar de forma estupenda por aquilo em que acreditamos. Resilientes, sonhadores, futuristas com capacidade de interpretação visual em várias dimensões. Em Portugal, os artistas/designers têm uma longa batalha a percorrer, mas é essa batalha que é, simultaneamente, motivadora e inspiradora.

Foi isso que nunca me fez emigrar, mas sim internacionalizar.

Precisamos de mover pessoas e mostrar que, em conjunto, conseguimos tornar-nos numa comunidade apenas.  O caso do design é uma disciplina que funciona em conjunto – o  designer cria, a industria produz e alguém tem de vender.

O mercado precisa de entender que o ato da criação de qualquer artista/designer/criador, surge porque foi solicitado para criar, pensar e desenvolver, logo deve ser remunerado por isso. Os artistas são marcas pessoais, e ao mesmo tempo, empresários deles mesmos, e este é o seu negócio, criar e gerar ideias. Criar é um processo altamente complexo que envolve um enorme investimento e muito risco. Mas é isso que ao mesmo tempo aporta valor para o mundo.