Fotografia: Gui Morelli Produção: Amparo Santa-Clara Texto: Mafalda Galamas

Exemplo perfeito da ponte entre o passado e o presente. Onde o original e irrepetível foi mantido, e o antigo, ou envelhecido, foi recuperado.

É considerada uma das principais avenidas de Lisboa, quase a meio caminho entre a Praça de Touros e aquele que fora, em tempos, o maior parque de diversões de Portugal, a Feira Popular. A Avenida da República reúne um espólio arquitetónico único que importa preservar. 

Aos primeiros passos no T3 que hoje vos mostramos, somos recebidos pela enorme e magnífica escultura em resina de poliéster, da autoria de Pedro Figueiredo, cuja imagem de marca são as formas que se alongam e se prendem ao chão em pés de gigantes dimensões. Uma peça que não nos deixa indiferentes e que faz antever aquilo que se segue. 

Quando o apartamento chegou às mãos dos atuais proprietários, uma das mais imperativas decisões, aquando das obras de remodelação, foi a construção de uma nova lareira e estanteria que marcasse a diferença na sala.

A solução encontrada pelo arquiteto Miguel Passos de Almeida viria, sem dúvida, a mudar por completo o espaço mais nobre da casa, tornando-se, assim, no elemento principal da sala.

É junto a ela que se distribui o mobiliário, como a mesa de centro e sofás adquiridos na loja Paris Sete, e é nela que repousam alguns dos objetos mais significativos desta família. Das molduras com fotografias, à coleção de charutos ou às botas de râguebi originais do proprietário, recordando o tempo em que ainda jogava. 

A base neutra composta pelos tons brancos das paredes, combinada com o cinzento da estante, ou cinza-claro do pavimento, dá espaço a que outras obras se destaquem. A arte é uma constante desta habitação, da escultura à pintura ou design de algumas peças de mobiliário.

Destacamos os quadros de João Cristóvão, por cima das estantes brancas, e a fabulosa escultura de madeira (pernas), da autoria de Pedro Moreno Ramos, adquirida na Galeria de São Mamede.

Mas num olhar mais atento, surpreendemo-nos com outros objetos decorativos aqui presentes… Como o candelabro da mesa de centro que é, na verdade, um puzzle, cujas peças se encaixam em múltiplas possibilidades. Ou, a capa do livro Infante (Bastienne’s Eye), com fotos de Ralph Gibson, exatamente igual ao quadro de Jorge Martins.

A mistura de peças é outra das características desta sala, onde as cadeiras de exterior combinam, surpreendentemente, com as cadeiras pretas, de pele, dos anos 50, e ambas, com os tapetes kilim.

Na zona de refeições, o pavimento em pedra, original, de 1965, foi cuidadosamente mantido. Condiz com o conjunto de mesa e cadeiras adquirido na Paris Sete. Neste espaço é reforçado o gosto pela pintura, tanto através dos três quadros de João Cristóvão, por cima do aparador, como pela tela de Miguel Teles da Gama, Falling, ou a da jovem fumadora, com autoria de Jaime Welsh.

Já na suite, o espaço é depurado e todas as carpintarias foram desenhadas à medida. A simplicidade privilegia a funcionalidade, numa área onde a arte não podia, uma vez mais, deixar de se fazer notar. Na parede da cabeceira de cama, o conjunto de quadros é de Salomé Nascimento e o quadro com representação de uma árvore é uma das primeiras obras do jovem artista Jaime Welsh, pintado quando tinha apenas oito anos.

Nas zonas húmidas do imóvel, todas remodeladas há cerca de três anos, os acabamentos quiseram-se modernos, práticos e de linhas direitas para um quotidiano mais funcional.