Prémio Rafael Manzano 2017

O sexto Prémio Rafael Manzano, que em 2017 foi ampliado para incluir o trabalho realizado em Portugal, foi concedido ao arquitecto português José Baganha. A sua trajectória profissional mostra uma firme vontade de preservar e dar continuidade às tradições arquitectónicas das regiões em que trabalhou, bem como actualizá-las, procurando sempre adaptá-las às exigências do nosso tempo. Todo o seu trabalho é um modelo de atenção e respeito pelo contexto, quer este seja mais urbano e clássico ou mais rural e vernáculo. Neste sentido, devem ser destacados os seus estudos sobre a arquitectura tradicional do Alentejo que serviram de base a muitos dos seus projetos construídos nesta região, tão contemporâneos como respeitadores da identidade e cultura locais.

VIDEO APRESENTAÇÃO DE JOSE BAGANHA E DA SUA OBRA

 

Video realizado por Irene Pérez-Porro Stillman  apresentando a obra de José Baganha, graças à qual foi galardoado com o Prémio Rafael Manzano 2017

 

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José Baganha

José Baganha nasceu em Coimbra em 1960. Estudou Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto e na Universidade Técnica de Lisboa e é doutorado pela Universidade do País Basco. Em 1991, fundou o seu próprio ateliê, trabalhando desde então em projectos residenciais, hoteleiros, comerciais, de equipamentos e urbanos, nos quais sobressai o especial cuidado pela adaptação ao contexto, o respeito pelas construções preexistentes e o desejo de humanizar e valorizar os lugares em que aqueles estão localizados. Foi professor nas Faculdades de Arquitectura de Viseu e de Sintra da Universidade Católica Portuguesa e professor convidado em diversas universidades europeias.

Fundou a INTBAU Portugal, co-fundou o Council for European Urbanism e é membro da direção do Colégio de Património Arquitectónico da Ordem dos Arquitectos. Além do Prémio Rafael Manzano 2017, as qualidades mencionadas do seu trabalho renderam-lhe outros prémios internacionais, como o Prix Européenpara a Reconstrução da Cidade 2011 da Fundação Philippe Rotthier.

 Primeiros projetos

Entre as suas primeiras obras estão a Casa nas Sesmarias (Salvaterra de Magos, 1992), a meio caminho entre os palácios e as casas de campo do Ribatejo; a Casa da Quinta da Pedra Taboleira (Viseu, 1999), projetada para seu pai num terreno rodeado de vinhas, enfrentando o difícil desafio de reconfigurar e valorizar um edifício pré-existente inacabado e mal construído; e o edifício da farmácia Grincho (Parede), construindo um volume que completa a composição do prédio a que está adossado.

Escala Urbana

O desejo de realizar os seus projetos a partir da base do lugar, com sua paisagem, sua memória e sua identidade, incorporando nos mesmos as construções precedentes, desenvolvendo com estas ou destas, transformando e enriquecendo-as, é uma constante em todo o seu trabalho.

Este mesmo método de respeito pelo precedente, para redesenhar o local sem transformações traumáticas, em continuidade com este, pode ser apreciado até mesmo nas suas obras de maior escala e de carácter mais urbano, como a Casa do Médico de S. Rafael (Sines, 2005-2006), um edifício concebido ao mesmo tempo como residência para médicos retirados e como espaço para eventos organizados pela Ordem dos Médicos de Portugal, no qual evitou o desaparecimento de um antigo edifício do século XVIII condenado a ser demolido, reconstruindo-o e transformando-o no coração do novo conjunto, ligado através de uma passagem elevada com um novo corpo no qual dispôs a residência propriamente dita.

Uma operação deste tipo pode ser vista no condomínio residencial designado “Das Janelas Verdes” (Lisboa, 2005-2006), no qual tratou o conjunto a edificar não como um único bloco, mas como uma sequência de edifícios contíguos, cada um com o seu próprio carácter, que usa para passar da escala mais urbana e da linguagem mais clássica da rua principal para a qual o quarteirão é aberto para a dimensão mais doméstica do bairro em que se integra e do qual adotou a linguagem e as soluções construtivas usadas. Integrou a fachada principal do único edifício pré-existente no local (embora muito arruinado) e, tendo que ampliá-lo em altura, optou por fazê-lo com um piso amansardado que se integra na escala e composição originais.

Alentejo

É, em todo caso, na continuação das tradições vernáculas da região do Alentejo que a maestria de José Baganha se destaca de forma mais proeminente. Tal é evidenciado pelo conjunto de montes alentejanos projetados nos últimos anos, como o Monte do Carujo (Alvito, 2001), Monte da Herdade do Rego (Vila Boim, 2003), Monte da Quinta (Terena, 2007-2009) e Monte do Prates (Montemor-o-Novo, 2007-2009), ou o restaurante que está actualmente em construção em Terena.

O seu estudo contínuo e exaustivo dos vários aspectos da tradição arquitetónica da região, bem como as suas nuances dentro deste vasto território: a sua estrutura urbana e paisagística, suas formas clássicas e vernáculas, as suas origens, evolução e consolidação, sua relação com o meio ambiente, artesanato, sistemas de construção e materiais locais ou diferentes tipos de construção.

Em alguns desses projetos, como no Monte do Carujo, Monte da Quinta, Monte da Herdade do Rego ou no restaurante de Terena, reintroduz as ruínas e construções pré-existentes em seu trabalho, dos quais os novos volumes são desenvolvidos, enriquecendo e atualizando a linguagem local, recorrendo sempre que possível aos seus materiais e soluções características, tais como chaminés, os revestimentos a cal, as abóbodas de tijolo, estruturas de madeira ou paredes de terra, dando lugar a uma nova paisagem em que não são menos importantes o alecrim, a lavanda, o tomilho, as oliveiras ou os vinhedos da região.

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