Por a 14 Janeiro 2022

Maxime De Campenaere é um designer belga apaixonado por azulejos cerâmicos. A versatilidade, explica, é uma das características que mais aprecia neste tipo de material que, atualmente, está a utilizar na sua primeira linha de mobiliário.

Fotografias: Maxime De Campenaere

O reconhecido designer de interiores belga Maxime De Campenaere, é um apaixonado por azulejos cerâmicos. Contudo, gosta de usar este material de formas menos convencionais, como é exemplo a sua primeira coleção de mobiliário. Em entrevista, Maxime explica porque filmes como “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick se relacionam com o seu trabalho, e porque foi importante que quisesse ter sido cozinheiro, jardineiro ou florista.

O que o levou a tornar-se designer de interiores?

Desde criança que sou muito curioso, era capaz de ficar a observar as casas no bairro onde vivia para acompanhar a sua construção. Aos seis anos comecei a desenhar e a idealizar espaços em planta. Ao mesmo tempo, ajudava os meus pais a cozinhar e a tratar do jardim. Aos 12 anos comecei a pensar na profissão que gostaria de ter em adulto. Na altura as minhas opções eram: cozinheiro, jardineiro ou florista. Mas à medida que o tempo ia passando foi-se tornando cada vez mais claro para mim que o que queria mesmo era ser designer de interiores, porque era um lugar onde podia combinar todos os meus interesses.

O que é que o inspira?

Sou fascinado por filmes em que o cenário desempenha um papel importante. Como o “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick ou o Playtime de Jacques Tatie. Também sou um ávido colecionador de amostras de materiais, porque são uma importante fonte de inspiração para mim. Assim como as fotografias que tiro nas minhas viagens, porque despertam associações e incentivam-me a brincar com as cores.

O que distingue o seu trabalho?

Profissionalismo, uma grande dedicação a cada projeto e um toque de humor. Fazemos projetos nas mais diversas áreas, com os mais diversos orçamentos, cronogramas e quadros técnicos. Não quero comprometer-me com um tipo de trabalho especializado. Isso seria aborrecido para mim e o resultado seria um design igualmente aborrecido.

Desenha fundamentalmente espaços de hospitalidade, residenciais e escritórios. Sente que as premissas que os norteiam está a mudar?

São três áreas distintas em termos de especificações técnicas, mas notamos que recentemente os seus limites estão cada vez menos delimitados.

Por exemplo, os escritórios estão mais flexíveis e existe um fator de bem-estar, a que muitos se habituaram com o teletrabalho, que estes espaços começam a reclamar para si. O nosso mais recente projeto na área dos escritórios, é a prova de como estas estruturas estão a ser desmembradas. Mais de 50% do espaço é reservado para espaços de comunicação das equipas, contudo, essas ideias são trocadas num sofá ou numa ilha de cozinha.

Qual o projeto mais desafiante que teve até então?

Cada projeto encerra em si um desafio diferente, mas em termos de orçamento e cronograma, o BeCentral foi particularmente exigente. Atualmente, o maior campus digital da Europa está localizado na Estação Central de Bruxelas e inicialmente fomos contratados para projetar uma área de 60 metros quadrados. Entretanto, o projeto evoluiu para nove conceitos de design e para 6500 metros quadrados. Tivemos apenas dois anos para concretizar este projeto e menos de 400€/metro quadrado para todo o trabalho, incluindo o mobiliário.

Neste momento, o que seria um trabalho aliciante?

Gostava de realizar mais trabalhos no setor hoteleiro e na área da restauração. Também gostava de trabalhar com artesãos locais. Para mim é sempre emocionante ver que materiais estão a ser utilizados no respetivo país e quais as habilidades necessárias para os trabalhar.

Por falar em materiais, o que é que o apaixona tanto nos azulejos cerâmicos?

Por exemplo, os azulejos cerâmicos são extremamente versáteis e estão disponíveis em muitos designs diferentes. Com eles consigo elaborar diferentes soluções estéticas e ainda atender a necessidades de funcionalidade. Os azulejos cerâmicos representam, por um lado, a autenticidade, e por outro o dinamismo, pelos seus desenhos.

A coleção Craft da Agrob Buchtal é uma série de azuleos muito primitiva e arcaica…

Sim. Descobri a série num revendedor local de azulejos e fiquei imediatamente fascinado pelos esmaltes de alto brilho, pela impressionante profundidade visual e pelo jogo de cores. Tinha a certeza que a série me iria inspirar a criar um conceito de design muito especial. Só tinha de esperar pelo projeto certo. E este projeto – Apartment Roseaux – foi a oportunidade perfeita.

De que forma?

A nossa tarefa era a de projetar duas casas-de-banho. Queríamos criar um ambiente caloroso na casa-de-banho para os pais e um ambiente fresco e estimulante para os filhos. Ao mesmo tempo, ambas tinham de se relacionar em termos de desenho. O lado artesanal foi a solução perfeita. Usámos os azulejos cerâmicos em amarelo dourado, combinado com ferragens pretas e acessórios e pavimento em preto e branco, na casa-de-banho dos pais. Conseguimos neste ambiente um equilíbrio entre o design contemporâneo e o vintage.

Para a casa-de-banho infantil escolhemos a cor azul esverdeado. A moldura da divisória do duche foi pintada de vermelho, de forma a criar um contraste. O espelho em forma de olho foi feito por encomenda.

Nos projetos residenciais, os azulejos são mais usados nas instalações sanitárias ou nas cozinhas? Que potencial vê neste material?

Como já referi anteriormente, são um material muito versátil, expressivo e flexível. Gosto de o colocar à prova e experimentar novas ideias. Neste momento, estou a trabalhar na minha primeira coleção de mobiliário e estou a usá-los…

Sobre o projeto “Apartment Roseaux”

O projeto de remodelação compreendeu a intervenção na sala de estar, cozinha e sala de jantar, assim como nas casas de banho e no quarto principal.

Para a sala de estar, o cliente pretendia um espaço completamente aberto e o proposto foi um espaço sem divisórias, mas adicionando um elemento de altura total (composto por uma lareira/televisão do lado da sala e um móvel que recebe os eletrodomésticos do lado da cozinha) que separa a sala.

As casas de banho e o closet foram alvo de um cuidadoso acabamento e especial pesquisa ao nível dos azulejos, misturando por um lado uma marca de azulejos vintage nas paredes em cores diferentes consoante seja a zona de duche dos pais ou dos filhos.