Num dos poucos bairros de Lisboa onde ainda se pode respirar o ar puro da vegetação circundante.

Fotografia: João Bessone Produção: Amparo Santa-Clara Texto: Mafalda Galamas

O cantinho da cidade imortalizado pelo poeta Luís Vaz de Camões na obra Os Lusíadas – através do simbólico velho do Restelo, que representava todos os que em si concentram o pessimismo sobre o rumo de Portugal -, é hoje, um dos melhores locais da capital para viver. Entre o centro da cidade e as praias da linha de Cascais, o bairro do Restelo tornou-se um local atrativo e convidativo, sobretudo pela oferta habitacional que, embora escassa, continua a ser voltada para as famílias. As suas moradias unifamiliares, tão características dos anos 50, têm vindo a ser alvo de inteligentes requalificações.

No caso da habitação que hoje lhe mostramos, a arquiteta Madalena Arbués Moreira foi quem assinou o projeto de reabilitação – totalmente à imagem do agrónomo Pedro Patrocínio e de Mariana Galindo, publicitária e recentemente fundadora da empresa de criatividade de impacto social – TTouch. O imóvel anteriormente compartimentado, e escuro, deu lugar a uma habitação ampla, desafogada, cheia de luminosidade e com vista para o jardim.

Uma das primeiras medidas da arquiteta foi deitar abaixo grande parte das paredes, criando um piso em open space quase total, deixando as vigas de ferro (de reforço) a descoberto. Os elementos de construção contemporâneos convivem com outros de épocas passadas, como as portadas originais que foram restauradas.

É neste piso que está reunida a zona social da habitação. Sala de estar e de jantar, com passagem direta para o jardim. As escadas de acesso ao piso superior respeitam os materiais envolventes como o ferro, ou os degraus em madeira, e servem de divisão de espaços entre salas, cozinha e lavandaria, as quais têm a possibilidade de serem isoladas sempre que pretendido através de uma porta deslizante.

Este é, sem dúvida, o piso nevrálgico do T4 de 200m2, que concentra na sala o espaço de eleição para a família se reunir. Sempre que possível, ao som do piano tocado pelo patriarca. É também aqui que se passam longas horas a relaxar entre uma leitura e outra, junto à salamandra, a observar o jardim.

Bem ao centro da sala foi construída uma estante divisória com abertura para ambos os lados, como forma de ganhar amplitude e luminosidade. Parte da decoração teve a mão de Joana Pereira Caldas que teve como base o conforto da família. Os livros, álbuns fotográficos, quadros e fotografias espalhadas – como a da bailarina Carmen Galindo – ajudam perceber a dinâmica desta família… O bailado está-lhes no ADN e é com orgulho que o partilham.

Algumas das peças de mobiliário vêm de família, como o porta-discos ou a antiga retrete de madeira decorativa. Nas paredes há a destacar as obras de Pedro Araújo, Francisco Mendes Moreira, Rafael Bordallo Pinheiro, Júlio Pomar e Carlos Botelho.

É uma casa cheia de vida, não apenas pela presença constante das filhas mais velhas do proprietário e, respetivos netos, como também pelos três jovens adolescentes que ainda se mantêm em casa. Foi, também a pensar neles, que o casal desenvolveu um espaço no primeiro piso, totalmente envidraçado, com caixilharia quadriculada em ferro, que tanto serve para os momentos de estudo e maior concentração, como para as circunstâncias de convívio entre amigos. Um espaço polivalente com acesso à varanda e vista direta para o jardim.

Fica paredes-meias com o quarto dos “Mapas”, pertencente a um dos adolescentes da casa. Algumas das peças do seu quarto merecem destaque como o móvel junto à janela ou a cadeira de couro, vintage, ambos adquiridos num leilão da antiga agência de publicidade BAR, onde a mãe trabalhara. Aliás, é numa parede desta mesma divisão que o gorila de led faz recordar esses bons tempos… É também aqui que estão afixados alguns dos momentos a não esquecer, como a toalha emoldurada pertencente ao artista Michael Bublé, apanhada num concerto em Lisboa, no ano de 2014.

Dos quartos das irmãs, ambos com cores serenas, destacamos a cabeceira de cama feita a partir das antigas portadas da casa, ou o quadro pintado pela avó paterna.

É no topo que encontramos a zona mais reservada da casa – a master suite com closet – de tetos inclinados e janelas de sotão acima da cama, permitindo uma vista privilegiada para as estrelas!