A arquitetura e os interiores Por Nuno Matos Cabral

Pedimos ao designer português, e autor do blogue Primeira Casa da Rua, que partilhasse connosco as suas reflexões sobre como vai ser a casa pós-COVID.

Desde que a pandemia surgiu que tenho vindo a refletir sobre como vai ser a casa pós-COVID nos seus mais variados ângulos, e quando refiro casa, falo é no seu sentido lato. Definitivamente, a casa e a forma como a vivemos nunca mais vai ser a mesma. A arquitetura, os interiores, a nossa vivência, mas também a tecnologia e a sustentabilidade são assuntos que merecem a nossa reflexão, em particular este último, tão importante. A casa merece cada mais vamos uma especial atenção.


A arquitetura e os interiores são o mote para este primeiro artigo de opinião. A casa pós-COVID vai ser uma casa com uma estrutura e organização mais informal, mesmo nas chamadas casas de luxo.

Os materiais utilizados, quer na arquitetura quer no design de interiores, serão cada vez mais de origem natural. Materiais que podemos ir buscar à Natureza, que se reproduzem com facilidade e que não se degradam com o tempo, nomeadamente o bambu, a cortiça, a fibra de cânhamo ou a .

Practice Architecture; fotografia de Oskar-Proctor

A cozinha aberta para a zona da sala, a chamada cozinha americana, vai ser um denominador comum a muitas residências, permitindo uma vivência mais descontraída, para uma simbiose perfeita entre os espaços. A cozinha é uma divisão tão importante como todas as outras.

Zuzana & Nicholas; Fotografia de Christopher Frederick Jones

Nós, designers, temos uma atenção especial na conceção das cozinhas para que estas fiquem perfeitamente integradas, amplificando a sensação de espaço maior e de liberdade de movimentos. Mas esta forma de olhar a casa pode ser extensível a outras área, e unir física e visualmente interior e exterior (varanda, terraço, jardim…), mas também a uma biblioteca ou zona de leitura, até um quarto de hóspedes ,encontrando-se soluções simples, como biombos, para tornar os espaços mais privados quando desejado. A casa deixa de ser estanque.

Outra característica da casa pós-COVID é a existência de divisões ou espaços multiusos. A sala de estar pode estar pensada e organizada de forma a que possa ter um espaço preparado para o teletrabalho, que veio para ficar, tal como também pode ter um espaço para realizar as aulas de ioga ou para fazer a meditação matinal.

Taringa Treehouse, Phorm architecture + design; fotografia de Christopher Frederick Jones, via Archdaily

Também o quarto pode ter uma zona definida para trabalhar / estudar ou ainda para se isolar dos restantes membros da família; da mesma forma, a casa de banho, se tiver espaço, pode ter uma área destinada a massagens que tanto podem ajudar a reduzir o stress diário a que somos sujeitos.

Archier Studio; Fotografias de Ben Hosking

Com a casa pós-COVID pretende-se despertar os cinco sentidos. Cada uma das divisões vai ter um ambientador personalizado, com aromas que criem sensações adequadas ao ambiente específico. A música também vai fazer parte da nova casa. Vai poder ouvir músicas diferentes em cada um dos espaços, sonoridades e ritmos adequados a cada momento ou período do dia.

O hall de entrada vai ser a única divisão onde se vai procurar ter alguma “estanquicidade”, esta é a divisão que faz a ligação entre a rua e a casa. É um espaço onde a designada sapateira, peça de mobiliário para guardar os sapatos, vai voltar.
Mais um desafio para os designers de interiores e de produto: criar peças com design apelativo e que possam ser integradas em qualquer estilo de casa.

Ammar Kalo, Multi-Tier-Shelf

A consola na entrada também não vai desaparecer, bem como um volume / solução / peça de mobiliário destinado a deixar as chaves de casa, o produto de limpeza de mãos desinfetante, assim como um bengaleiro ou roupeiro integrado na entrada para guardar os casacos.

Volcano, móvel desenhado por Nuno Matos Cabral, pode ser usado para arrumar sapatos à entrada de casa, pré-composto lacado e latão

Todas as alterações que já identificámos, ou que vão surgir na casa pós-COVID, são pensadas para permitir aos seus utilizadores um estilo de vida mais descontraído e saudável. Em última instância, a casa pós-COVID tem como objetivo final o nosso bem-estar, a palavra da década.

Nuno Matos Cabral

Nuno Matos Cabral Design Studio / Primeira Casa da Rua