As limitações espaciais e ao nível da luz natural e as exigências de uma cliente conhecida pelas suas festas, e pelo cocktail Moscow Mule que prepara como ninguém, resultaram numa casa camaleónica. O projeto está nomeado para os ArchDaily Building of the Year 2020 Awards.

 

Fotografia: Dion Robeson

 

Nos subúrbios da cidade, esta casa é assim como uma espécie de luxuosa gruta de cimento, apenas temperado pelos acabamentos das várias gamas de madeira. Preparada para satisfazer os prazeres gastronómicos e de entretenimento – som e imagem de alta qualidade não faltam – de quem ali habita, o projeto é o resultado de uma colaboração intrínseca entre cliente, arquiteto, construtor, consultores e fornecedores. O arquiteto foi o produtor, o construtor foi o realizador, a cliente escreveu o guião e os demais foram os técnicos e artesãos inestimáveis ​​que transformaram a ideia numa realidade 3D.

A colaboração harmoniosa, os esforços combinados e a inspiração de todos os envolvidos resultou num espaço único batizado Vodka Palace.

“A cliente é uma amiga próxima e uma pessoa única”, diz Marcus Browne, o arquiteto. “O seu lado reservado convive bem com a faceta de rainha da festa, e como tal foi-nos solicitado um espaço de convívio e de entretenimento, onde ela pudesse reunir amigos e familiares próximos em grande estilo, sem ter de sair de casa”.

Por seu turno, a casa deveria ser de baixa manutenção, sem paredes pintadas e todo e qualquer material externo e acabamentos deveriam garantir duração a longo prazo, estabilidade e garantir um nível de manutenção contínua mínima. A cliente exigiu ainda produtos ecológicos, desenvolvidos e fabricados segundo as premissas da sustentabilidade e com a segurança em mente.

Funcionalmente gizada a pensar no comportamento do camaleão, a Vodka Palace permite a criação e usufruto de diferentes efeitos visuais, dependendo da ocasião e do clima desejado.


Ponto de partida para as muitas festas, a cozinha e a copa estão equipadas com eletrodomésticos de alta qualidade – a cliente teve o seu primeiro restaurante aos 19 anos e foi gerente de vários clubes e de um hotel, além disso faz um vodka ‘Moscow Mule’ como ninguém. Aqui, o sistema das portas de correr da Sky-Frame permite abrir esta parte da casa para o deque, nas traseiras, onde se servem as iguarias que ela prepara.

A frieza do cimento é comum a todo o espaço interior, apenas aquecido pelos acabamentos de madeira. Esta opção ao nível dos materiais e a paleta de cores neutras resultou numa atmosfera serena, quase zen. “A minha casa parece um abraço masculino, firme e envolvente”, diz.

No que toca aos exteriores, a cliente queria sentir-se como se estivesse na sua segunda casa, na região sudoeste da Austrália Ocidental, onde ela tem e gere um hotel famoso, e tal foi plenamente conseguido com a ajuda do designer paisagista Tim Davies, que ali plantou árvores nativas e arbustos da região.

A arquitetura da casa tem algo de inspiração brutalista, mas está em linha com os edifícios do bairro, muitos deles típicos daquela zona costeira, junto à cidade. Toda a madeira usada foi escolhida tendo em conta a sua durabilidade e resistência às nuances de um clima costeiro.

 

Além disso foi submetida a um processo de queima, numa reinterpretação da antiga técnica japonesa de ‘Shogu Sugi Ban’ que sela e impermeabiliza a madeira para uso externo.

O cimento, à semelhança dos interiores, é o material principal, apenas diferindo o tipo de tratamento. Ainda no exterior, e alojada no jardim, na parte de trás da propriedade, ‘The Caboose’ é uma pequena cabana projetada para garantir alojamento completo aos hóspedes, amigos e familiares residentes no estrangeiro, conforme necessário.

Foi justamente projetada para que ninguém tenha de passar pela casa principal e desempenha uma função adicional, como um pano de fundo escuro em contraste com o deque, definindo espacialmente o pátio e acentuando o paisagismo. Facilmente acedida através de um caminho secreto ao longo do lado este, o hóspede pode entrar e sair da cabana sem ter de entrar na residência principal, minimizando assim a perturbação da sua ocupante.

Por que a parcela de terreno é longa e estreita, com casas de dois andares de ambos os lados e próximas aos muros, o desvio da luz natural exigia o recurso a claraboias que iluminassem alguns dos espaços interiores, nomeadamente aqueles mais distantes das janelas, a norte e a sul. Além disso, a cliente necessitava de espaço para o estacionamento dos dois carros, área de arrumação e uma bancada de trabalho, o que significava a necessidade de escavação até uma profundidade limite de 3,5 metros.

“Felizmente, os proprietários da casa no lado oeste decidiram escavar ao mesmo tempo, o que nos permitiu combinar forças e colaborar a níveis mutuamente benéficos para compensar a necessidade de uma estabilização do solo, que é além do mais dispendiosa”. No lado oposto, por seu turno, a sobretaxa de peso da casa adjacente exigiu a implementação de uma significativa estabilização do solo para permitir a escavação, o que resultou num processo de aprovação demorado.

No que toca às opões sustentáveis – caso das madeiras usadas, obtidas segundo prática responsáveis e devidamente certificadas – estas ​​incluem um sistema solar fotovoltaico de 24 painéis ligado a um Inversor Híbrido Fronius Symo para fornecer energia ao domicílio e armazenar temporariamente a energia excedente do sistema fotovoltaico da Bateria Solar Fronius.