Morar em Lisboa, num espaço que já serviu outros interesses, outras funções, e hoje aloja e confronta as facetas doméstica e profissional de uma família alargada. Os arquitetos e proprietários revelam-nos de que forma esta comunhão é um privilégio.

Fotografia: Gui Morelli / Texto: Isabel Figueiredo / Produção: Amparo Santa-Clara

Situada num zona industrial, em Lisboa, esta casa é, também, um atelier. Ou, corrigindo,  respeitando a hierarquia, um atelier-casa, como nos referem os seus proprietários, uma vez que se integra no seu gabinete de arquitetura.

Tem uma área aproximada de 280m2 e, por não se tratar de uma casa dita convencional, não será assim tão linear contabilizar o número de divisões, mas feitas as contas, arriscamos um número: 7.

Tiago Silva Dias e Teresa Beirão da Veiga, o casal de arquitetos que aqui habita com a família, assinam o projeto da conversão do espaço, que foi originalmente ocupado para indústria e escritórios, depois transformado em atelier e estúdio de dança – duas das filhas são bailarinas – e, posteriormente, ocupado, parcialmente, como habitação.

A decisão da comunhão do espaço de habitar com o espaço de trabalhar comandou esta operação. “Ao terem sido criadas fronteiras definidas, existe hoje na casa uma permeabilidade que nos permite gerir o tempo de uma forma muito flexível”, revelam. “Há quem veja nessa interligação uma dependência, ou até promiscuidade – porque, frequentemente, recebemos em casa os clientes do atelier; nós vemos como um privilégio e uma dimensão de liberdade”.

“A questão, de caráter cultural, de como inserir uma casa com um forte cariz doméstico articulada com um espaço de trabalho num edifício de génese industrial foi o leitmotiv de todo a intervenção”, prosseguem.

Para tal, manteve-se a envolvente existente: o pavimento em mosaico hidráulico industrial, as paredes em alvenaria e o teto em betão pintado, “sendo que todos os elementos apostos nos remetem para uma atmosfera doméstica: não só pela compartimentação do espaço como pelo enquadramento dado pelas madeiras de freixo, as texturas e cores que contrastam com as dos espaços de trabalho e a iluminação indireta geral e dirigida onde é preciso”.

Uma parte significativa das peças de mobiliário foram desenhadas pelos arquitetos e outras, resistentes, provêm de casas anteriores. “Raramente eliminamos uma peça, pois gostamos do jogo da adição – mais do que as peças em si, o interessante é a sua relação e como isso influencia, ou é influenciado, pela vivência da casa”.

A questão de relação sobressai na disposição dos quadros e tapetes, pois, para além do valor plástico que contêm e do conforto que proporcionam, a composição do conjunto, “que se vai alterando conforme nos apetece ou porque entra uma peça nova é, por si, uma expressão artística que nos dá particular prazer de produzir”.

A evocação conceptual da organização espacial da domus romana constitui a marca formal: um átrio central, centro da vida familiar, que recebe luz natural zenital, envolvido pelos cubículos, que é rematado axialmente por um espaço de estar.