Situada em pleno Alentejo, na região dos mármores e dos vinhos, foi durante muito tempo a sede de uma importante casa agrícola, sendo, por isso, o mármore o material aqui utilizado com profusão. Monumento de Interesse Público, a casa de família goza da paz e da vastidão da paisagem daquela região, atraindo amigos e turistas, que ali bebem um pouco da sua história

TEXTO: ISABEL FIGUEIREDO FOTOGRAFIA: JOSÉ MANUEL FERRÃO PRODUÇÃO: AMPARO SANTA-CLARA 

A escadaria monumental que dá acesso ao piso principal, mas também as cantarias das janelas e portas ou o altar da capela atestam a riqueza da pedra mármore, material em que esta zona do Alentejo é rica, eximiamente trabalhados.

No total, casa e jardim arrumam-se em cerca de 4 hectares e meio, sendo a área de implantação de cerca de 2000 m2. O edifício secular aloja, no piso térreo, as dependências ligadas à atividade agrícola – algumas delas ainda mantendo os nomes, como a casa da farinha, a casa do vinho, a casa do leite ou o celeiro. Parte destas dependências agrícolas foram transformadas no espaço para festas e eventos, sempre muito requisitado nos meses de verão.

O primeiro e segundo pisos são destinados a habitação, espraiando-se em cerca de 30 divisões. A existência do edifício, que já soma 200 anos, testemunhou muitas alterações no decorrer dos anos. A última, e de maior vulto, consistiu em adaptar parte da casa para turismo de habitação, com cinco suítes, sala de jogos, sala de televisão, entre outras valências.

“Tudo isto foi feito mantendo o mesmo ambiente de casa de família, pelo que os hóspedes, mais de que num hotel, sentem-se em casa e isso dá-nos uma enorme satisfação”, revela-nos a sua proprietária. “Também o jardim foi alvo de algumas modificações”, prossegue.

Contando-se, entre outras, a construção da piscina, mais uma vez com o recurso a materiais da zona, como o mármore ou o xisto, tudo isto sem prejuízo das árvores centenárias.

“O arquiteto Gonçalo Ribeiro Telles, amigo da família, perguntava-nos muitas vezes pelo jardim”, revela. “Gostamos de pensar neste jardim como um ser vivo, e não uma coleção de espécies sem ligação entre si.

Há́ sempre algo em flor ou a rebentar, mesmo em pleno inverno”. De entre as muitas alterações e trabalhos de melhoramento levados a cabo por quem ali passou e habitou, salienta-se a construção de um segundo piso, no final do século XIX.

Este é talvez o mais notável. Não obstante, a casa tem sido objeto de trabalhos de manutenção regulares, se bem que a grande maioria são mais discretos. “Esta é uma habitação de família, habitada diariamente e usada como tal”, diz- -nos. Como tal, e tratando-se da sede de uma casa agrícola, está perfeitamente integrada na região, exibindo, aqui e ali, materiais da zona, nomeadamente o mármore, em profusão e trabalhado com grande qualidade pelos artesãos.

A decoração é sóbria e clássica, sem descurar o conforto e as exigências da vida contemporânea. As várias gerações têm acrescentado objetos e mobiliário: “Somos apaixonados por este constante acrescentar de camadas de memórias, gostamos de misturar objetos, de recuperar outros, trazidos dos sótãos ou dos celeiros da casa.

É um trabalho infindável e é precisamente o facto de ser um trabalho que nunca está terminado que nos seduz. Há́ sempre qualquer coisa que pode ser melhorada ou alterada, recuperada. Por ser a nossa casa, a casa onde crescemos, onde passámos grande parte das nossas infâncias, onde estão as nossas raízes e as nossas memórias, este é um lugar que gostamos de partilhar com amigos e família, mas também com os turistas”, pontua.

Findo um longo período de tempo, e um processo que se alongou, a casa foi declarada Monumento de Interesse Público e este facto “trouxe mais pressão e responsabilidade às possíveis intervenções a realizar.

A preocupação com preservação da memória tem de estar aliada à responsabilidade e vivência dos sítios e do património. Para além de usufruir, temos o dever de preservar e manter, no entanto, estes edifícios só por estarem classificados não podem morrer, ficar sem vida e é essa a nossa preocupação.

É um edifício muito grande, com necessidade de atenção e vigilância constantes”. E quando não é casa, é o jardim ou o pátio. Aqui privilegia-se a estética impecável, o usufruto sem desconforto. “Gostamos que tudo esteja sempre impecável”.

E dá como exemplo, o inverno, a altura do ano que serve para repensar e preparar o jardim para a primavera e para o verão, “limpar, podar, mudar de sitio”.

No que diz respeito ao espaço do jardim e da piscina, outra das preocupações é a questão da sustentabilidade e aproveitamento de recursos. “Tentamos escolher espécies que suportem as grandes amplitudes térmicas da zona, que não necessitem de muita água e que, ao mesmo tempo, permitam desfrutar de um jardim cheio de sombras e arvores centenárias”.