Fotografia: Warren Heath/Bureaux Produção: Sven Alberding Texto: Tracy Chemaly

A designer de interiores Sarah Ord pegou numa casa antiga na sua Cape Town, África do Sul, e juntou padrões e cores improváveis como cenário para a felicidade.

“Posso parecer o Chapeleiro Louco, da Alice no País das Maravilhas, mas juro que não sou maluca”, diz, rindo, Sarah Ord, enquanto tenta justificar a mistura, aparentemente desconexa, de cor, mobiliário, arte, objetos herdados e estranhas curiosidades que enchem a casa onde agora habita com a família em Cape Town.

Sarah e Nigel, o marido, mudaram-se de um pequeno apartamento no centro da cidade para a casa onde vivia antes a sua mãe, e onde Sarah cresceu. Esta casa, nos arredores arejados e cheios de viçosas árvores, em Claremont, seria ideal para o casal e o filho Charlie com 5 anos. A vida nos subúrbios oferecia mais espaço, bem-estar e um jardim onde as crianças pudessem brincar.

A mudança acabou por demorar 4 anos: uma nova gravidez, doenças várias, a abertura do mais recente negócio da família, o The Stack, um clube privado em Cape Town, com bar e brasserie, que apenas uma semana depois da abertura ardeu por completo e teve que ser reconstruído de novo. Só depois destes contratempos Sarah meteu finalmente mãos à obra: “Senti que precisava de um reset na vida”, diz a designer, que começou por pintar a sala, a cozinha e a sala de estar num luxuriante verde-floresta, inspirado numa antiga caneca de cerveja comprada à pouco tempo num antiquário, e que agora lhe serve de jarra no quarto do casal.

É esta espontaneidade impensada que a faz imaginar-se como Chapeleiro Louco: logo de seguida pintou os armários de cozinha, antes brancos, num ousado azul e um velho aparador tristemente cinzento em vermelho aberto. “Quando começo não paro”, diz Sarah, “o branco é simplesmente aborrecido!”

Este uso arrojado da cor é apenas uma das muitas atrações que levaram Sarah ao mundo dos Interiores. Também se perde por tecidos, lacas orientais, cerâmicas, cestos e antiguidades. É uma frequentadora assídua do Gumtree, um site de trocas, vendas e compras online, onde tudo se negoceia, desde autocaravanas até bibelots. É aí que Sarah vira as noites, em busca de novas peças para as suas várias coleções; esta nova casa é bem o espelho desta guerrilha virtual, plena de achados online e peças encontradas em leilão.

As antiguidades são as únicas coisas a salvo da trincha e da lata de tinta: “adoro e respeito a patine, o grão e a textura que só o tempo oferece”. A cama de Sam, o filho mais novo, é destes salvados à trincha, com as pernas torneadas e os cantos delicadamente entalhados, evidenciando uma rara mestria de bom marceneiro, encontrada no Gumtree: “as pessoas, muitas vezes, não sabem o que estão a vender” afirma Sarah, incrédula, “trago estas peças antigas para um contexto contemporâneo, apenas as limpo, e tornam-se preciosidades!”.

Colecionados ao longo dos anos, os tecidos adorados por Sarah – desde ikats até batiks africanos, florais ou impressões animais – foram cosidos uns aos outros, gerando novos padrões, e são agora uma multitude de almofadas inusitadas que transformam as várias divisões da casa em oásis de conforto.

Mas a estrela têxtil desta casa não podia ser mais clássica, os reposteiros de chintz da sala de jantar, outro achado no site Gumtree: Sarah nem acreditou no acabara de comprar, um tecido gizado pelo próprio “príncipe do chintz”, Mario Buatta.

Sarah acredita que o antigo pode viver confortavelmente ao lado do contemporâneo, quando ambos são escolhidos com critério. Não receia juntar cristais oferecidos no casamento, de gosto algo duvidoso, a colecionáveis Wedgwood, com potes modernos marroquinos ao fundo fazendo inesperada parelha com castiçais toscos de madeira comprados na beira da estrada.

A sua coleção de arte é igualmente eclética: quadros herdados da bisavó, papel de embrulho de uma farmácia italiana, emoldurado, uma gravura de Picasso manchada e obras de arte, agora valiosas, de antigos alunos de escolas de arte, asseguram que parede alguma não tenha uma história para contar