Fotografia: Paulo Lima Produção: Amparo Santa-Clara Texto: Mafalda Galamas

Com vista para o Jardim do Príncipe Real, esta casa encerra uma coleção de peças dignas do espólio de uma galeria ou antiquário de qualquer parte do mundo. O resultado, arrojado e surpreendente, é o reflexo da personalidade de quem aqui vive.

Há muito que a arte saiu dos museus e passou a interagir de outra forma com as pessoas. Fazer pensar e refletir sobre a vida, alcançando uma nova leitura sobre tudo o que nos rodeia é, hoje, algo mais democratizado. O apartamento que lhe mostramos nesta edição é o exemplo perfeito disto mesmo. 

Os proprietários, cidadãos do mundo, percorrem galerias, feiras e antiquários pelo globo inteiro. Onde, aqui e acolá, conseguem as melhores licitações, trazendo para casa verdadeiras obras de arte. O próprio imóvel lisboeta, distribuído por 160 m2, faz parte de um prédio histórico, com quase dois séculos de vida e vista para o rio Tejo! Condições sine qua non para aqui se estabelecerem. 

Através das cores, padrões e materiais, também nós viajámos no tempo com esta visita guiada. A personalidade desta casa, alvo de poucas obras de intervenção, sente-se logo aos primeiros passos. E vejam só se não estão reunidos na sala de estar alguns dos seus maiores ex libris

É aqui que recebem amigos e familiares, e, sentados no canapé amarelo, com a representação de dois gansos – adquirido num antiquário de Lisboa, têm vista para a mesa de jantar, em madeira, art deco. Na parede, duas das peças mais exclusivas da sala, os apliques dourados. Fazem parte dos únicos quatro pares existentes no mundo inteiro e vieram de Versalhes, o mais imponente dos palácios dos arredores de Paris. Conhecer de perto uma obra de arte original e desenvolver um olhar atento é, sem dúvida, uma das experiências possíveis neste apartamento.

No outro extremo da sala, um canapé retangular em madeira patinada a folha de ouro com dois pavões incorporados, que veio do emblemático Palácio Foz, nos Restauradores. Está acompanhado por uma cómoda portuguesa e quadro italiano, de moldura dourada, e representação de Jesus Cristo, obtido num antiquário da capital. 

As colunas verticais, os castiçais, lustres, cristais, a arte sacra, o quadro gótico, ou a peça em pau-santo adquirida em Nova Iorque… Em suma, uma decoração profundamente enriquecida do ponto de vista da diversidade e das origens, já que estão aqui reunidas peças oriundas de galerias nacionais e internacionais. 

Ao lado, na verdadeira sala de jantar, o ambiente é semelhante. Tudo é sumptuoso e requintado. Espaço restrito e acolhedor, destina-se apenas às refeições de família. Na mesa repousa a chinesa Maison que, embora seja de porcelana, se movimenta. Acima, um lustre português. E, atrás, o aparador do século XVIII, que era dourado e os proprietários mandaram pratear, tal como os tocheiros, para que o espaço ficasse mais harmonioso. Destacamos ainda a mesinha de madeira império e o espelho feito de cristais de rochas, comprado em Nova Iorque, embora se acredite que tenha origem italiana. 

Já no quarto, que preserva a fantástica cruz de Santo André, encontramos sobretudo peças de arte sacra – do oratório adquirido num leilão no Porto, onde vemos na parte de dentro a pintura italiana do séc. XVIII, à coleção de quadros do Sagrado Coração de Jesus em prata. A cabeceira e mesinhas de cabeceira foram executadas por artesãos da Escola Ricardo Espírito Santo. O quarto é, na verdade, um misto de biblioteca, com livros sobretudo de moda e arte, dois dos maiores interesses dos proprietários.