Fotografia: António Moutinho Produção: Amparo Santa-Clara Texto: IP

Numa Zona residencial, incaracterística, esta casa encerra muitas histórias, vivências e sobretudo a criatividade de quem a decorou, Salvador Corrêa de Sá, num registo cénico invulgar.

Conhecido pelas suas pinturas decorativas e gosto pela mistura eclética de peças, de tantas proveniências e épocas, numa profusão de cores, texturas e padrões, Salvador é, assumidamente, um artista de mão cheia.

Sensível, envolvente, com uma história de vida que enriquece conversas e projetos, o também decorador – é o proprietário do atelier ‘Corredio Decoração’ – e organizador de eventos projeta-nos para dentro do seu universo, fascinante.

A casa, alvo de poucas obras de remodelação, esconde nas traseiras um belíssimo jardim com piscina, afastada dos olhares alheios. É talvez o seu ‘ex-libris’ e seguramente o ponto de fuga de quem ali mora.

No piso superior, existem três salas, de áreas diferentes. Uma destina-se a zona de leitura, recolhimento ou apenas para ver televisão ou ouvir música. É a sala dos retratos e dos muitos, tantos, livros.

Cruzando o hall de entrada, fica a sala maior, a de estar, com mesas, cadeiras e sofá, e uma lareira sempre acesa enquanto o tempo não aquece. A terceira é a destinada às refeições e no dia da reportagem estava posta, aguar- dando um jantar principesco. 

Há́ ainda um quarto de hóspedes, uma cozinha e uma casa de banho. No piso inferior, ao nível do jardim da piscina, estão os outros dois quartos e casas de banho. Datada dos anos 70, a casa mantém o chão de madeira, visível aqui e ali, quando os tapetes não o cobrem. Apenas as paredes deste piso foram, na sua totalidade, pintadas por Salvador, em vários estilos, entre eles o ‘trompe l’oeil’. Em todas as salas convivem sem conflito mobiliário, peças de arte, antiguidades, óleos, gravuras, fotografias, faiança, antigas ou contemporâneas… E ainda muitos tecidos, do atelier, sobre as mesas, cobrindo as janelas, em vários padrões e texturas, caindo no chão como grandes saias vitorianas. 

É uma casa cheia. De memórias, histórias, vivências e gente. Porque por ali passam muitos amigos e familiares, que se reúnem em jantares prolongados, ou pernoitam. “Esta casa não é praticamente usada durante o dia, aliás é uma casa pensada para a noite, quando tudo iluminado, pelos candeeiros e velas, ganha um significado quase operático”, diz Salvador. 

Na sala de estar, o destaque vai para o grande sofá́ em laranja fogo, e as almofadas displicentemente dispostas, o grande espelho em talha dourada e alguns óleos. Na sala de refeições, de novo destaque para a mistura, neste caso das cadeiras, resgatadas de mesas de jogo, que rodeiam a mesa com capacidade para dez pessoas.

No longo corredor, sobressai um óleo gasto pelo tempo, de grandes dimensões. O retrato do avô de Salvador é uma cópia muito antiga de uma obra exposta nas galerias Uffizi, em Florença e chama por isso a nossa atenção. 

No quarto de hóspedes, em tons de vermelho e ouro, destaque para a cama D. Maria, a coleção de gravuras que cobre uma das paredes e o quadro sobre a cama, de Francisco Pinto Coelho (2005), que pintou uns sapatos Puma, de Salvador, comprados em Madrid. 

Aqui e ali o olhar distrai-se facilmente porque as coleções de peças, antiguidades, obras de arte, retratos de família clamam a nossa atenção e queremos perceber como tudo, naquela casa, convive sem atropelos.

Deve-se sem dúvida à criatividade, e sensibilidade, deste homem, que adora a vida, os amigos, a família, o seu cão Tola, fiel amigo, salvo de uma vida errante pelo verde da serra de Sintra e por tudo o que é belo.