Conhece-se artista desde os três anos. Navega por este mundo, aqui e ali, à procura de respostas, que acaba por encontrar e refletir nos seus trabalhos. Caso da mais recente exposição em Lisboa, resultado de um ano de trabalho em busca de despojos marítimos e outro materiais que o mar fizesse dar à costa.

Fotografia: Ana Paganini / Entrevista: Isabel Figueiredo

Depois do primeiro ano da licenciatura em Belas artes na Universidad Francisco de Victoria em Madrid, que decidiu não concluir por necessitar “de algo mais contemporâneo”, Janis Dellarte mudou-se para Londres onde fez um ‘Art & Design Foundation’ na Chelsea College of Art, um short-course de Joalharia Experimental com a Anastasia Young, na Central Saint Martins, uma Licenciatura em ‘Textiles and Surface Design’ na Buckinghamshire New University e um Mestrado em ‘Knitted Textiles’ no Royal College of Art. Currículos à parte, e não satisfeita, Janis regressou a  Portugal – e engrossou a lista de conhecimento, com as passagens pelo Curso Livre de Performance Arte Portuguesa: ‘Performers e Performances’ na Universidade Nova de Lisboa e o Workshop de Estratégias para o Intérprete Contemporâneo por Vânia Rovisco no Espaço Sou. A sua vontade maior de criar – aos três anos já dizia que queria ser pintora -, “mais uma necessidade do que outra coisa”, espelha bem o seu espírito inquieto.

Quais são as principais premissas do seu trabalho atual?

Acho que o têxtil é uma prática muito bonita, muito antiga, de respeito. O fio como fonte de conhecimento e superação, e a nossa capacidade de fazer dele o que precisarmos. Uma linguagem muito minha nasce após anos a pesquisar tradições têxteis em vias de extinção, tanto nas vilas portuguesas como em países como o Nepal, a Índia, o México e o Peru, uma linguagem  eternamente mutável e orgânica.
Numa altura em que tudo se está a tornar tão tecnológico move-me acreditar que há uma necessidade em manter viva a passagem de conhecimento de geração para geração: essa corrente do manual, o artesanal, o erro humano, a repetição, as histórias, um outro tempo; e de trazer esse conhecimento ao agora, ao corpo, ao movimento, ao artivismo, à terra; transformando-o para fazer sentido nos tempos que correm. Vejo as minhas peças como amuletos, pequenos reservatórios de boa energia, de quentinho, de cor, de sustento, que contam histórias de amor e desamor.

A exposição ‘Nós Enredamentos, Entretecidos Despojos´ no Jardim Botânico do Museu de História Natural da Universidade de Lisboa, tinha um mote, qual e porquê? 

Esta exposição é o resultado de um ano de trabalho em que me mudei para o litoral alentejano em busca de despojos marítimos e outro materiais que o mar fizesse dar à costa. Inevitavelmente, tratei de problemas como o impacto desregulador que a globalização da forma de viver ocidental tem na natureza, e a possibilidade, com alguma ironia, de criar beleza e contar histórias com este lixo.  

Que trabalho lhe deu particularmente prazer ver ganhar forma e porquê.

Sinto o meu trabalho como um todo, em continuação, por isso é-me difícil pensar assim. Costumo dizer que este cresce organicamente como trepadeiras, quanto mais tempo passo num espaço ou numa peça mais ela cresce, trabalho sempre em várias peças ao mesmo tempo e há peças que estou a fazer crescer há muitos anos! O prazer que tenho no meu trabalho vem de todo um processo: tanto duma ida à praia, apanhar material, como das viagens a vilas perdidas em busca de conhecimento ancestral em tradições têxteis cada vez mais em vias de extinção, dos dias inteiros a preparar os materiais. Gosto muito de colaborações, também.

Quais os materiais que privilegia atualmente? 

Material reciclado, encontrado ou natural.

Quais os artistas que fazem parte do seu top 5.

Neste momento, talvez os mais relevantes para o meu trabalho sejam Maria Nepomuceno, Ernesto Neto, Nick Cave (performance), Faig Ahmed, El Anatsui e Arthur Bispo do Rosário.

O que a move no mundo de hoje?

Move-me viver da forma mais sustentável possível, plantar, criar sem parar, aprender coisas novas, partilhar conhecimento, auto-conhecimento, boas pessoas, boas conversas, rir, cantar, dançar, festejar, ritualizar, música.

O que a faz feliz? 

A cor; as pequenas surpresas; uma história contada com verdade, mesmo que nem sempre com factualidade; a natureza; a música e uma boa dança!

Onde se imagina daqui a 10 anos? 

A criar longe da cidade.  

Um país que adoraria visitar?

Afeganistão. Os tecidos são os mais maravilhosos. A inteligência e o trabalho – a história! – para conseguir aquele efeito, aquela beleza… são dum pormenor e de um cuidado extraordinário. Quando estive na Índia, durante três meses, a pesquisar técnicas tradicionais de têxteis, reparei que as peças que mais me atraíam eram sempre desta região do Mundo.

Uma cidade incontornável. 

Na minha vida, Londres.