O edifício, datado do início do século XX, entretanto reabilitado, é hoje a morada de um arquiteto e da sua família, um refúgio na cidade onde arte e design descrevem um diálogo fluido.

Fotografia: Paulo Lima

Datado de 1904, o prédio, com cinco fogos, alojado num dos bairros típicos de Lisboa, estava originalmente consagrado ao arrendamento de longa duração. Em meados da década de 80 apresentava já um avançado estado de deterioração, com as paredes da fachada principal e de tardoz degradadas e em risco de ruína.

“O edifício era composto por dois pisos, acima da cota de soleira e um piso semi enterrado. A sua distribuição interna era, à época, a tradicional”, conta-nos o arquiteto, seu proprietário, referindo-se à distribuição esquerdo/direito, “com escada de acessos central e estrutura de alvenaria de pedra, equipada com sistema gaioleiro e pavimentos em soalho de madeira e cobertura de telha vã”.

Numa primeira operação de reabilitação, transformou-se a organização interna do edifício em três fogos, com um apartamento a ocupar todo o piso 1, com tipologia T2. No piso 0 criaram-se dois fogos – um T1 e um T2 em duplex, que ocupava parte do piso 0 e o piso semienterrado.

Dez anos mais tarde (1996/1997), procederam-se a obras mais profundas, que levaram à configuração atual, de um fogo, para a habitação da família dos atuais proprietários. Esta última intervenção incidiu também no jardim e na construção da piscina, desenhada em conformidade com o projeto de arquitetura paisagística, uma colaboração entre os arquitetos João Cerejeiro e Jorge Spencer e os donos do edifício, também eles arquitetos.

“As principais opções da intervenção centraram-se na completa alteração da organização interna da casa, passando a orientar os espaços sociais da casa para o lado do jardim, e para uma melhor orientação solar, em detrimento da organização existente, que tinha os espaços principais localizados do lado do arruamento principal como era tradição fazer nos edifícios de rendimento”.

Assim, no piso 0, com acesso direto da rua, introduziu-se uma garagem e os espaços da cozinha, da sala de jantar e da sala de estar, estas duas em plano aberto. Neste piso foi criada ainda uma casa de banho social e todo este piso goza da ligação ao jardim com a piscina, ao qual se acede via a sala.

“Foi nossa intenção preservar as várias chaminés existentes que pertenciam às antigas cozinhas, adaptando-as para lareiras, hoje presentes na sala do térreo e no quarto principal, no primeiro andar, aberta para o quarto e para o atelier/ sala de estudo e ainda no quarto de brincar do piso semi-enterrado”, descreve.

Neste processo de renovação esteve sempre acautelada a necessidade e vontade de preservar o caráter do edifício existente, potenciar a entrada de luz, estabelecer modos de circulação alternativos, tirando partido da escada central e manter a organização original, transformando-a e adaptando-a aos nossos dias e necessidades, sem prejuízo dos tetos altos.

Foram por isso respeitados os métodos construtivos, entre eles as paredes de alvenaria de pedra, o sistema Gaioleiro, o tipo de vãos, os soalhos de madeira. “O que foi introduzido procurou a integração mas assumindo a contemporaneidade da intervenção”, refere o arquiteto. São exemplo disso os caixilhos de madeira, os pavimentos em pedras das instalações sanitárias, os estuques pintados nas paredes…

Ao longo do seu usufruto, somam-se já 22 anos, a casa tem vindo a ser equipada com peças de design e algumas obras de arte assinaláveis. Os espaços de estar e de refeições exibem sofás da Flexform e da entretanto descontinuada loja Desigual, cadeirões dos anos 40, uma belíssima mesa de jantar redonda Art Déco, rodeada por cadeiras de autor desconhecido dos anos 50, em aço e pele.

Convivem ainda, sem atropelos, os candeeiros Tolomeo, na estante, ao fundo da sala de estar, assinados Michele de Lucchi & Giancarlo Fassina para a Artemide (1987), o candeeiro da sala de jantar Disc Lamp, por Norman Foster para a Lumina, o tronco de madeira esculpida com cabeça, por Paulo Neves, ou as pernas esculpidas, junto à porta de acesso ao jardim, por João Castro Silva.

A algumas das peças da loja de Lisboa, Cavalo de Pau, junta-se a pintura de Julião Sarmento, Júlio Pomar, António Sena ou os desenhos de Eduardo de Souto Moura.

Esta é assim uma casa que reúne hoje espaço, volume, materiais e luz, um refúgio na cidade, bem equipado de todas as valência, arte e design.